2020 - Encómio | Aos ossos, à bravura e ao sono dos cetáceos

Acontecimento experimental, de carácter performativo e de instalação cénica. Visa ser realizado em espaços cujas características permitam ao público escolher a perspectiva, a distância e a possibilidade de se locomover, neste sentido o projeto é concebido a 360º.A performance consiste numa série de ações que desvendam, montam e compõem uma estrutura escultórica cuja madeira vive como matéria - embora não única - elementar na sua produção, e o Trabalho/Ócio como conceitos basilares. Os materiais/objetos/texturas e sonografias surgem e vivem como simbologias ritualísticas - aparecem de caminhadas, de visitas a uma oficina de carpintaria e de outros encontros intuitivos - tornando-se na sua aparição, neste caso performativa, presença poética.

Um projeto de e com Flávio Rodrigues
Assistência à criação: Bruno Senune
Documentação: Eva Ângelo (Registo de vídeo), e Susana Neves (Registo de fotografia);
Residências de pesquisa e criação: Balleteatro (Porto), Circolando (Porto), CAAA-Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura (Guimarães), DevirCapa (Faro), CEA-Centro de Experimentação Artística (Moita), Teatro de Ferro (Porto);Co-Produção: Festival Walk & Talk (Açores);
Projecto financiado pela Direção Geral das Artes/ Ministério da Cultura

AGENDA
- 6 a 25 de Janeiro de 2020: Residência de pesquisa, experimentação e criação entre Oficina de Marcenaria (Arcozelo, Vila Nova de Gaia) e Teatro de Ferro (Porto):
- 10 a 17 de Março de 2020: Residência de pesquisa experimentação e criação em espaço de Walk & Talk (Açores);
- 13 a 17 de Julho de 2020: Residência de criação em espaço Central Eléctrica, com curadoria de Circolando.
- 1 a 7 de Setembro de 2020: Residência de criação em Balleteatro (Porto);
- 8 de Setembro de 2020: Apresentação em Coliseu (Porto), com curadoria de Balleteatro;
- 17 de Outubro de 2020: Apresentação em espaço Movimento Presente (Lisboa), com curadoria de Raquel Faria;
- 28 de Outubro de 2020: Apresentação em Festival Contradança (Covilhã);
- 31 de Outubro de 2020: Apresentação em CAAA - Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura (Guimarães);
- 18 de Setembro de 2021: Apresentação em FIDANC - Teatro Garcia Resende (Évora);


Entrevista com Ana Renata Polónia (Coreógrafa e arquiteta, Porto)

ARP: Quando inicias esta performance/escultura, qual é o percurso ou processo que tens em mente percorrer? É sempre igual? Estás aberto a variações?

FR:Diria que neste momento, a ação de construção e composição da escultura está muito clara e definida para mim, embora que o som dos objectos ou o tempo de montagem sofra variações (por consequência do momento em específico), a escultura em si tem uma, diria, deliberação fixa, pelo menos para esta apresentação. Mas importa também anotar que provavelmente a escultura sofrerá alterações no decorrer das várias apresentações que se seguem, tenho como ideia resgatar outros materiais em novas caminhadas associadas à apresentação em si.


ARP:Existe uma preponderância de um material, a madeira. Como surgiram os restantes objectos na composição?

FR:Eu divido os materiais/objectos em quatro grupos. 1 - As madeiras (ou paus) que surgem em situação de caminhadas e nesse sentido são mantidas e cuidadas no seu estado aquando encontradas, isto é, não sofrem qualquer tipo de alteração da minha parte. 2 - As madeiras em potência, são aquelas que recolhi de restos de obras da oficina do meu pai, e estas podem ou não ser esculpidas por mim (sendo que diria que a maioria não o são). 3 - As madeiras fabricadas, embora que não compradas para este propósito, são provenientes de um processo de fabrico, diria que comum, e chegaram até mim de diferentes meios (por exemplo o aro de bordado que surge no fim, é um objeto que pertenceu a um processo de criação de um anterior projecto). E 4 - os objectos que não são madeiras mas que surgem simbolicamente associadas ao conceito Trabalho, por exemplo a pedra como suporte ou a carta de Rei de Paus.

Inicialmente eu tinha muito em ideia desenvolver uma escultura de raiz que usava a madeira como matéria elementar, na oficina do meu pai. Mas entretanto, (embora que não só, mas a questão do distanciamento social foi muito impulsionadora), comecei a interessar-me cada vez mais por objetos que não eram esculpidos por mim, mas sim de algum modo encontrados e resgatados.


ARP: A escala dos materiais e objectos que utilizas diria que estão muito relacionados com a dimensão da mão, e do manuseamento que fazes deles. Mas a base onde os colocas transporta-nos para outra dimensão, talvez uma cidade imaginária...o que impulsiona o posicionamento de cada elemento no espaço?

FR: Inicialmente tinha ideia em criar uma escultura que nos engolisse na sua dimensão, e que pusesse em causa o lugar de quem observa e de quem activa a ação, isso não aconteceu e a escultura foi surgindo de pedaços cuja dimensão, como dizes, do tamanho da minha mão. Eu diria que, embora não só, isto emerge no interesse que cada vez mais fui alimentando pelos objetos que encontrava nos caminhos (à semelhança do anterior projecto "rúptil | na era dos castigos incorpóreos"), de restos, memórias e desperdícios. A base branca é suporte, tela, lugar em aberto...

É muito curioso falares em "cidade imaginária", porque sim, essa ideia está muito presente neste projecto, talvez não diria cidade, mas lugar, só mesmo para permitir recuar ou avançar a um tempo onde não existam humanidades. Eu gosto de olhar para a instalação final como um possível percurso para se fazer uma caminhada, se nos reduzirmos à dimensão adaptada aos materiais que lá estão. Também tenho a sensação que vou erguendo matérias, e que elas vão sendo cada vez mais altas, não necessariamente mais bonitas ou mais difíceis, mas eu arriscaria dizer que vou construindo, algures, também essa possibilidade de cidade que falas, daí o erguer.

Já aconteceu, após a escultura concluída, estar uma aranha lá, e permiti-me com atenção a observar o seu percurso, não foi longo, mas foi interessante perceber as opções que ela tomou.


ARP: O uso do som é bastante subtil, no entanto no início e final surge de forma mais evidente. É um sinal de partida e chegada?

FR: Sim, diria que sim. Eu tento ter muito em atenção, mesmo que seja subtil, cada som que acontece. Cada vez sou mais, e isso agrada-me muito, cuidadoso com aquilo que ouço, até o som produzido de quem observa me interessa, sendo transformador do Aqui. No final, é mais evidente, aquela composição é para mim uma forma de abrir o lugar a visitantes. No outro dia disse a um amigo, que foi ver um ensaio, que aquele som era como ativar a circulação de sangue em cada matéria e em cada material - no ultimo som das baquetas, a vida abre os olhos.


ARP: Poderá haver uma dimensão ritualística na tua prática?

FR:Eu acho que sim, ou melhor, eu tento que sim. Eu gosto de olhar para aquilo que tenho desenvolvido, artisticamente, como rituais. Rituais de criação, de experimentação, de pesquisa e de exposição com e/ou para o observador/colaborador (público). Colocar força e elementaridade na palavra Ritual transporta-me para uma dimensão pluri-prisma, onde está tudo aqui, onde o agora me situa e me torna atento, frágil, forte, receptível, silencioso, minucioso...  


Coliseu.Ageas com Curadoria de Balleteatro (Porto):


CRL-Central Eléctrica (Porto) / Residência de criação e pesquisa: 


Festival Contradança (Covilhã):


Video relativo a apresentação em FIDANC (Évora)