Biography (in process)

Flávio Rodrigues é artista multidisciplinar, começou a dançar e a desenhar com a professora e artista Alexandrina Costa em 1992. Tem formação em Dança pelo Ginasiano (1996), Balleteatro Escola Profissional (2003), Dance Works Rotterdam (2005) e pelo Núcleo de Experimentação Coreográfica (2008). Frequentou o curso de Intervenção Pública e Criação de Obras Site-specific na Universidade Lusófona (2009) e frequentou o curso de DJ na escola Bimotor (2015).
Desenvolve desde 2006 os seus próprios projetos de criação artística multidisciplinar, experimental, processual e de carácter autobiográfico. O desenho, performance arte, manipulação de objetos, som, movimento e a escultura são os essenciais média a que recorre. Como performer propõe-se à construção e composição de dispositivos intuitivos, recorrendo a materialidades, sonoridades, imagens e objectualidades maioritariamente provenientes de processos de encontro espontâneo, reaproveitamento e respigação. A caminhada e o estado de deriva têm emergido como meritória base processual.
Os seus projectos têm sido desenvolvidos, apresentados e expostos em diferentes lugares e em parceira com diferentes estruturas como Teatro Municipal Rivoli (Porto), Arte Total (Braga), Ilka Studios (Hannover), 4BidGallery (Amsterdam), Rua Gaivotas 6 (Lisboa), Faculdad de Bellas Artes U.C.M./Acción Spring(t) (Madrid), Lake Studios (Berlim), Centro de experimentação artística CEIA (Moita), Festival Mandala (Wrocław) ou Correios em Movimento/Dança em Trânsito (Rio de Janeiro).
A par do desenvolvimento das suas próprias criações e pesquisas, tem vindo a colaborar como figurinista, músico, cenógrafo, performer (entre 2006 e 2017) ou assistente de ensaios com diferentes artistas e companhias.
É artista associado do Balleteatro desde 2021.


Statement (in process)

Nos meus primeiros projetos de criação, entre 2006 e 2009, levei para estúdio motivações essencialmente provenientes de questões autobiográficas, relacionadas com a família, gênero ou sexualidade. Olho para estas primeiras performances como experimentos destinados a um corpo formado intensivamente em dança a relacionar-se com a ideia frágil de contar uma história em primeira pessoa. Nem sempre o corpo dançava no sentido mais literal de dançar, mas a necessidade de colocar o corpo num lugar de observação e de espetacularidade para com o público esteve sempre presente. Entre 2010 e 2015 desenvolvi uma série de projectos cujo corpo se manifestou veículo e transportador de, para além de questões identitárias, também poéticas em torno da arte como propósito ou assunto. Comecei a sentir cada vez mais necessidade de aprofundar, aprender e de pôr em prática as várias linguagens que me instigam curiosidade tais como o desenho, a música, a escultura ou a construção de figurinos. Desde criança que gosto de práticas artesanais, influenciado pelos ofícios dos meus pais, a minha mãe com a costura e o meu pai com a carpintaria. Em 2010 no projecto "Até ao fim", a ação basilar consiste no desenhar com água uma série de circunferências no chão, após o espaço preenchido, destaco e decalco uma das circunferências com pedras, para que esta permaneça no tempo e no espaço ao contrário das restantes. Na altura eu tinha levado para estúdio pensamentos sobre morte e fim, a memória da minha avó, cuja morte assisti de presença quando tinha 11 anos, estava ainda muito registada no meu pensamento. Com as performances "Inverno de 2011", Starveling | The Rite of Spring (2012) e VERSE$ nutro o corpo como objeto vivo, visando projetar o gesto como força de criação, em "RARA" (2013) a voz e a palavra são a materialidade elementar para pensar o corpo em revolta, manifesto, fuga e transição (imigração). Em 2015 no projeto "G.O.D.| Goddess of desire" demarco ou registo uma circunferência num chão coberto de confetis, onde no seu centro ergo uma bandeira feita de pequenos lixos representativos de uma sociedade hiper consumista

Em 2016 com o projecto AIM sinto que transito para um lugar de criação onde os objectos e as materialidades se tornam o foco de exposição. A escuridão presente no lugar, e a transparência presente na roupa que me cobre o corpo foram métodos que fui encontrando para de algum modo, talvez desaparecer, e fazer aparecer ou sobressair os resíduos que permanecem no palco. Desaparecer de cena foi também um dos assunto que quis tratar com a performance seguinte intitulada de "Efígie (2017)", performance ação que consiste na destruição do meu próprio busto em gesso. Desde 2018 que tenho projectado as minhas criações para lugares que permitam que a presença do público seja ambulatória. A linha que me separa como performer do público tem-se tornado cada vez mais tênue, e a importância que dou aos resíduos de cada ação performativa tem-se tornado cada vez mais expressiva, apelando que após minha ausência o evento torna-se expositivo. Neste sentido emergem eventos tais como "rúptil | na era dos castigos incorpóreos" (2019), "Encómio | aos ossos, à bravura e ao sono dos cetáceos" (2020) ou "Hodiernidade | e na anfibologia do Agora" (2021). Ao longo dos anos tenho recorrido à caminhada como um método nutritivo para a criação dos meus projetos. Caminhar possibilita-me uma contínua - e deriva - reflexão e o encontro com materialidades, onde uma paisagem é projetada como um possível desenho, sonoridades ganham forças musicais ou objetos induzem-se em características escultóricas. Identifico, para já, a obra que tenho desenvolvido como uma construção paulatina autobiográfica, processual e aberta a qualquer possibilidade de transformação seja através do tempo ou da intuição.

(este texto está em contínuo processo de escrita e reflexão)