2021 - Encíclico | e na anfibolia do Agora



O circulo (na geometria, entende-se como o conjunto dos pontos internos de uma circunferência), e a circunferência (entende-se como lugar geométrico dos pontos de um plano que equidistam de um ponto fixo), são figuras, na sua poética, com recorrência significativa nos meus projetos criativos. Em 2010, na performance “até ao fim”, estreada no Performas (Aveiro), desenho no chão, com água, pequenas circunferências que preenchem todo o espaço de ação, e os desenhos vão desaparecendo paulatinamente pela particularidade da matéria utilizada. Na peça "G.O.D." em 2015, estreada no Teatro Municipal Campo Alegre (Porto), demarco no chão preenchido com confetes, um circulo com cerca de 3 metros de diâmetro, aqui, evocando o território e a desterritorialização como princípio conceptual. Em 2017, "Efígie | Chorus Landscape", estreado no festival DDD (Porto), conto com a presença colaborativa de 40 pessoas, criando uma figura circular de corpos, com vista à elaboração de uma paisagem sonora, utilizando a voz em coro. Para finalizar, notifico também como exemplo, a performance “rúptil | na era dos castigos incorpóreos”, estreada na Arte Total (Braga) em 2019, na qual construo uma escultura em formato circunferencial que recorre a areia como matéria elementar, este projeto tem a ação de caminhar como matéria base.

Embora a recorrência estética seja semelhante, a motivação e o ponto de partida de cada situação, difere. Artisticamente, reconheço um fascínio meu por figuras circulares (na sua disposição cénica, nos objectos utilizados ou no percurso executado pelo corpo), e é nesse fascínio que pretendo mergulhar e conceber novas e complexas directrizes, dando resultado a um projeto de investigação teórico-prático intitulado de “Encíclico | e na anfibolia do Agora”. 

Na etimologia a palavra círculo vem do latim circulus e originou a palavra ciclope, os ciclopes (do grego antigo Κύκλωψ, "olho redondo", de κύκλος, transl. kýklos, 'círculo', e ὤψ, transl. ṓps, 'olho') eram, na mitologia grega, gigantes imortais com um só olho no meio da testa que, segundo o hino de Calímaco, trabalhavam com Hefesto como ferreiros, forjando os raios usados por Zeus.

Na arte, na ciência, na história (…) figuras circulares surgem em múltiplas e variadas situações: a távola do rei Artur, o templo de Apolo, a auréola (comum em santos do Cristianismo), em Uroboro, (serpente que morde a própria cauda). Na land art, artistas como Tanya Preminger, Robert Smithson, Jim Denevan ou Vicenzo Sponga recorreram a esta configuração nas suas obras. Na dança, notifico a icónica coreografia “Sagração de Primavera” de Pina Bousch em que a um determinado momento, os bailarinos correm exaustivamente em circulo. Notifico as danças ritualísticas do povo Xavante, onde cada pessoa segura firme na mão do companheiro, entrelaçando os dedos, e dessa forma, os corpos criam um circulo de poder que desafia o cansaço, o desânimo e a força da gravidade. Na astronomia, o símbolo do Sol consiste num círculo com o centro assinalado e na alquimia esse é o símbolo do ouro. E claro, quando falamos em circunferência ou círculo, logo nos lembramos da roda, uma das maiores “invenções” do ser humano. Provavelmente “inventada” a 3500 a.C., na região da Suméria ou Mesopotâmia (apesar de controvérsias entre alguns pesquisadores). Concluo referenciando “Ensō (円相)”, palavra japonesa que significa “círculo”, e é um conceito muito associado ao Zen Budismo. É o mais comum objeto na caligrafia japonesa, apesar de ser um símbolo e não um ideograma. O seu simbolismo refere-se ao começo e ao fim de todas as coisas, ao círculo da vida e à conexão da existência. Pode simbolizar vazio ou plenitude, presença ou ausência. Todas as coisas podem estar contidas ou, pelo contrário, excluídas por seus limites. 

Para este projeto, é fundamental o levantamento, a seleção e o estudo de todas estas e outras referências, no sentido de alimentar, fortalecer e encorajar à concepção – dentro da subjectividade e da poética – de uma serie de acções a dar lugar à criação artística.
A performance art, intervenção urbana, site specific, e escultura são alguns dos medium a recorrer. Como base processual, estou interessado na efemeridade das ações, na rua como lugar de passagem, nas suas materialidade, nos seus usos, nos seus usuários, nos seus tempos e nos seus códigos.

É no meio urbano que, tal como refere Yves Grafmeyer que “se estabelecem, se amplificam e multiplicam as interações de todas as ordens que constituem o princípio da vida social”. Esta configuração espacial resulta num jogo entre proximidades desejadas (seja de pessoas, serviços ou vida cultural), proximidades indesejadas (seja com questões como violência, pobreza, superlotação demográfica ou trânsito de carros) e também de proximidades inesperadas. Se a cidade é o lugar do encontro de diversas naturezas, a rua é onde converge essa possibilidade: a rua pode ser uma casa, pode ser um lugar religioso, de protesto, de passeio, de vitrine, de palco, de trabalho ou de ponto de encontro.

Embora a rua seja o ponto de partida, inspiração e elementar lugar de investigação, “Encíclico | e na anfibolia do Agora” projecta-se como uma ação performativa a acontecer em espaços interiores, tais como museus, foyers de teatro ou pavilhões. 

“Encíclico | e na anfibolia do Agora” é um projeto de investigação e urgente no seu discurso, este é um projeto que existe no hoje, no aqui e no agora. Figuras circulares são vistos como rituais de partilha, de voz em conjunto, de cerimónia, de encontro global e de celebração da beleza.

Sinopse
“Encíclico | e na anfibolia do Agora” é um projeto de caracter experimental e recorre à rua - espaço público e de passagem - como lugar processual. Resulta em uma acção performativa (construção e composição cénica), para espaços que permitam ao público a opção de deambular (escolhendo a perspectiva que melhor lhes interessar).
Figuras circulares são o ponto de partida para à criação e ocupação de um território poético, utilizando uma linguagem híbrida e multidisciplinar. 



Um projeto de Flávio Rodrigues