1. A sua formação teve início na Escola de Dança Ginasiano, no Porto, tendo cessado esse percurso em 1996 (terias cerca de 12 anos). Depois destaca-se a escola Balleteatro. O que é que o levou ao Ginasiano em primeiro lugar e o que é que, anos mais tarde, o fez optar pelo Balleteatro em detrimento de uma escola que já conhecia? 
Na verdade, eu comecei a dançar com 7/8 anos com uma professora chamada Alexandrina Costa, ela dava aulas numa sala na sua própria casa.
Aos 12 anos, a minha professora de Português sugeriu à minha mãe inscrever-me no ginasiano, isto porque para além de eu gostar de dançar, era uma criança com défice de atenção e concentração e frequentar o ballet poderia resolver esse “problema”. 
O ginasiano foi uma experiência muito positiva para mim, não só na minha ligação com a dança, como no que diz respeito a uma série de percepções sociais, foi nesse contexto, por exemplo, que percebi que ser homossexual não era algo que eu tinha que guardar só para mim – lembremos-nos que estamos a falar de à 22 anos atrás, e eu vivia numa zona muito pequena de Vila Nova de Gaia. 
O balleteatro aparece mais tarde, já por opção minha. Eu queria ser criador, ser artista. Para além de dançar, eu gostava de desenhar, de costurar, de escrever... 



2. De que forma a sua formação influenciou o tipo de trabalho que faz? Existiu algum momento do seu percurso académico/artístico que percebeu que queria criar algo diferente ou sempre foi uma realidade no seu dia-a-dia? 
É muito complicado para mim responder a essa pergunta, eu não sei de que forma a minha formação no balleteatro, por exemplo, influenciou os meus projetos de criação. É claro que influenciou, mas eu tenho claramente uma ligação complexa com a minha formação artística/académica, sempre tive (e continuo a ter) muitas dúvidas no que queria ser e no queria estudar e naquilo a que queria me especializar. Eu gostava de dançar, mas não gostava mais do que desenhar, por exemplo. Eu sempre quis criar, é curioso que eu já entrei no balleteatro a querer ser coreógrafo ao invés de ser bailarino. E mal termino o curso, foi o balleteatro que me permitiu pela primeira vez, estar em residência artística para que eu pudesse desenvolver, com tempo e com condições, um projeto a ser apresentado no festival Dança.pt (agora já não existe, mas era um festival organizado pela Né [Barros] e Isabel Barros, diretoras do Balleteatro). E em residência, percebo logo que queria, ali em estúdio, pensar e experimentar outras linguagens que não só a dança. 



3. O que é que encontrou de novo na Dance Works Rotterdam e de que forma é que essa experiência influenciou o percurso que tomou? O que é que o fez voltar a Portugal? 
Na​ Dance Works e​u basicamente fazia aulas de dança contemporânea e ballet. A experiência de viver na Holanda, na altura, foi muito rica. Eu estava a precisar de sair de Portugal e de viver em outro país. Não queria somente estudar ou dançar, aliás, eu queria acima de tudo viajar. De seguida fui conhecer Londres, e voltei para Portugal porque tive saudades do mar. 


4. Frequentou o curso de Intervenção Pública e Criação de Obras ​Site-Specific, pela Universidade Lusófona. Vê as suas obras como uma intervenção social/política? Trabalha no sentido de as tornar interventivas ou é algo que deixa ao acaso? 
Foi um curso interessante e importante para mim. Principalmente como alerta e percepção para que direção eu gostaria de ir com os meus projetos criativos. O espaço público interessa-me, fascina-me. Gosto de estar e de explorar lugares não convencionais – a rua é brutal, é crua... 
E sim, eu acredito que os meus projetos sejam políticos – independentemente de serem mais ou serem menos subjetivos ou poéticos. Interventivos? Talvez. Eu identifico-me com essa palavra. 



5. No contexto da dança em Portugal, considera que as performances em Site-Specific podem ser um motor mais eficaz para a sensibilização e educação da sociedade para esta arte? Quais é que são os erros mais frequentemente cometidos em ​Site-Specific?​ 
Eu acho que no acontecer de ações performativas (ou outras) no espaço rua, inevitavelmente damos lugar a um confronto mais direto com o público e por isso, naturalmente, surge a possibilidade de captar novos públicos. Isso agrada-me, ir de encontro com as pessoas, o teatro como edifício é um lugar seguro, protegido para os ​performers, para os técnicos e para o público – a caixa preta mima-nos (em comparação com a rua claro, porque o teatro também pode cair). 
Não acredito em erros na criação artística. O erro, o certo, o mau e o bom é algo que me assusta muito e do qual me tendo a afastar. 


6. Como é que surgiu a ideia da obra ​MAGMA​? 
A performance MAGMA foi criada durante 8 ou 9 meses. Nesse tempo elaborei duas longas caminhadas, estive em várias residências, passei por várias fases do processo. Já por norma é-me muito complicado falar sobre as minhas peças, e esta em particular, pelo longo processo, ainda me complicou mais o discurso. 
Contudo, agora com alguma distância, posso dizer-vos que acho que ​MAGMA é um projeto sobre estar aqui hoje e agora, com coragem. ​AIM (performance de 2016) era sobre o medo, e ​MAGMA​ é exactamente sobre o seu oposto.
Daí o ​punk​, daí o lugar branco e exposto, a figura militar, as bandeiras erguidas... Acredito que a melhor forma de resumir é dizer-vos exactamente isso: ​MAGMA é um projeto sobre uma voz presente e afirmativa, e é um alerta de que é urgente estarmos de olhos bem abertos. De estarmos atentos e fortes e sim – corajosos. 



7. Qual foi a intenção do sino? Sendo uma peça composta por tantos adereços simbólicos, de que forma é que esse de destaca? 
Não sei se o sino se destaca, mas é um elemento fundamental. O sino surge numa fase inicial a partir de uma captação sonora que fiz numa das caminhadas. Depois ​a posteriori decidi levar o objecto para estúdio – e começou-me a interessar as ligações, as subjetividades e poéticas que o objeto e o respetivo som levantaram: a ordem, o chamamento (ritual), o animal (manada)... 



8. Qual a razão de utilizar tantos acessórios/figurinos (cordões, mantas) e criar instalações que acompanham aquilo que faz? 
É muito intuitivo para mim a utilização de vários materiais. Eu gosto de construir, de costurar, de desenhar. Quando estou em residência preciso de me acompanhar de objetos – talvez por estar maioritariamente das vezes sozinho, os objetos tornam-se presenças que me fazem companhia. ​MAGMA é uma consequência dessa minha intuição e necessidade. Interessa-me olhar para os objetos como corpos capazes de ter presenças particulares. E ​MAGMA está repleto de materiais, cujos foram surgindo ao longo do processo, uns entraram e desapareceram, outros permaneceram e sofreram mutações, como é o caso da bandeira ​patchwork.​ 


9. É comum nas suas peças utilizar música da sua autoria e de a colocar enquanto está em cena. Existe algum motivo específico ou necessidade para o fazer? 
Faço música para mim e para outros colegas também criadores (Bruno Senune e Cristina Planas Leitão). Nunca estudei música academicamente, idealizo-a e realizo-a como no desenho ou como na costura, através de um processo intuitivo e sensível. 
No palco costumo controlar tanto o som como as luzes (não em todas as performances, mas em algumas) por uma questão como já referi anteriormente: os meus processos são bastante solitários e gosto de exercer várias funções na própria peça... 



10. Em ​MAGMA o seu foco constante é o público, e por diversas vezes pausa como se aquele momento devesse ser memorizado. Parece querer puxar o público para cena e ao mesmo tempo distanciá-lo como se o que acontece em palco fosse um quadro. Tendo em consideração que esta interpretação resulta do visionamento de pequenos excertos da peça, este olhar existe de facto e com essa intenção? Se sim, qual é o motivo? 
Sim. Em toda a performance está presente esse olhar de mim para com o público. Em uma das fases do processo (em residência no teatro de ferro), criei uma espécie de mapa (intenções, motivações, palavras chaves, imagens...) e uma das palavras centrais era “aviso”. Essa palavra deu lugar a uma série de improvisações e experimentações a partir do olhar e dos respetivos tempos que cada olhar precisaria – interessava-me criar essa ligação (por vezes até desconfortável) com o público, quase como se eu estivesse constantemente a dizer “olha para mim, estou a fazer isto para ti”. 


11. Qual o impacto que esta peça teve na sua vida, tendo em conta o seu percurso artístico? De que forma podia comparar com o seu primeiro solo - Tarde demais Mariana​ - em 2006? 
Não gosto muito de pensar que os meus projetos são alterações muito significativas, eu vou criando, com tempo, coragem, medo e prazer. Ir criando, ir vivendo.
Eu sou uma pessoa dedicada aos meus projetos, mas também sou muito dedicado às minhas cadelas, à minha casa, aos meus passeios de bicicleta... talvez por isso não sinta que as minha peças provoquem alterações brutais em mim, elas são uma pequena zona de um todo que me acontece. 
Olho para a minha primeira peça com muito respeito pelo tempo e pela minha dedicação. 



12. No seu site fala da autobiografia como tema transversal e central das suas obras. Qual é o motivo dessa escolha e como é que a trabalha? Pode ser um mero ponto de partida que o leva a uma temática completamente diferente ou faz questão que esteja sempre presente? Começa sempre por um tema sobre o “eu” ou permite-se iniciar o processo sem uma temática definida? 
A autobiografia nos meus projetos é uma questão muito problemática. Eu não acho que ​MAGMA (por exemplo) seja uma autobiografia, o que eu acho é que ela faz parte de uma autobiografia que estou a construir desde 2006. Eu olho para cada peça como uma pequena fração de algo maior que está a ser construído com tempo e no tempo. 
Claramente, cada projeto apresenta abordagens sobre mim, sobre a minha vida, sobre eu estar aqui hoje e agora.
Eu começo uma peça com motivações muito dispersas, mas normalmente em torno de questões pessoais. E sim, importa a minha visão do mundo, a minha situação, o meu estado, o meu corpo, a minha voz a minha opinião. Mas eu não acho que ao falar de mim esteja só a falar de mim... 


13. Interpreta na maior parte das vezes os trabalhos que desenvolve. Quais são as razões para que esse trabalho que desenvolve - autobiográfico ou não - não o faça para outro corpo mais frequentemente? 
Sim, é verdade. Eu gosto muito e gosto cada vez mais de processos solitários. Às vezes acordo a meio da noite com urgência em ensaiar, e faço-o. Se não for eu o intérprete isso torna-se muito complicado. E confesso que esses acontecimentos são cada vez mais recorrentes em mim. Chateia-me horários muito rígidos, chateia-me planificações muito precisas... e claro, quando tenho uma equipa a trabalhar comigo, essa rigidez é fundamental. 
E eu gosto de estar comigo próprio, com o meu próprio corpo. Vê-lo envelhecer, conhecê-lo cada vez mais e melhor. Discutir comigo, e permitir-me a desistir sempre que achar necessário. Concluo que trabalho muito melhor sozinho, porque não sou propriamente fácil de lidar. 
No entanto, eu gosto de por vezes chamar grupos de colegas para explorar uma ideia ou uma ação, algo cujo processo seja curto... fi-lo por exemplo, recentemente, para uma intervenção no festival ddd (Efígie | Chorus Landscape) ou também para uma outra experiência performativa que celebrou o aniversário da UPTEC no Porto. 


14.​Quais foram os momentos mais marcantes da sua vida profissional e pessoal? 
Talvez essa seja a questão mais complexa para mim. Tenho vários problemas em salientar e enumerar momentos "mais" ou "menos" importantes ou "mais" ou "menos" marcantes. Mas assim em modo muito imediato (e a misturar a questão profissional com a pessoal - e esta mistura também ela é complexa...) posso fazer sobressair quando sai de casa dos meus pais para viver no Porto, quando fiz a minha primeira tatuagem (Holanda), e quando adoptei a Carlota (a minha cadela).