2020 - Encómio | Aos ossos, à bravura e ao sono dos cetáceos




(INFORMAÇÃO TEMPORÁRIA)

“O ócio não pode existir onde não se sabe o que ele é” 
Sabastian de Grazia



Os últimos projetos que tenho desenvolvido são na sua maioria aliados a uma pesquisa em torno de e com objetos. Artisticamente, fascina-me as possibilidades que diferentes matérias e materiais abarcam na sua relação com o espaço e com o corpo. Talvez por isso a instalação cénica, a criação/manipulação de objetos, as esculturas e o desenho têm sido recorrências nas minhas criações autorais. Inclusive, nas composições sonoras, tendo a utilizar captações do som de objectos em contacto entre si ou com outras matérias, como forma de chegar a possíveis “melodias” ou a paisagens sonoras. Também denoto que, no meu projecto anterior, “rúptil | na era dos castigos incorpóreos”, embora ele seja conceptualmente sobre a prática da caminhada como deslocação, a apresentação pública resume-se a substituir a memória da presença do corpo, por esculturas de materiais e dimensões variadas, que ao ocupar o lugar da acção, se fazem perdurar no tempo.
Olho para o meu corpo e vejo-o cada vez menos como um corpo treinado/dançante, e cada vez mais como um corpo que se aproxima para construir (esculpir, desenhar...), e que se afasta para observar, em conjunto com o público. 
Estou cada vez mais interessado em aprofundar o registo e a “gravura” que o acontecimento performativo conclui e deixa como rasto - e é nesta cada vez mais presente e continua forma de olhar o meu corpo, que inicio o processo de criação para este novo projeto, intitulado de “Encómio | aos ossos, à bravura e ao sono dos cetáceos”. 

O meu pai (1958), marceneiro e carpinteiro desde os seus 9 anos - à 18 que tem a sua própria fábrica - sempre me transmitiu uma especial adoração pela sua profissão. Desde criança que eu me lembro de gostar do cheiro da madeira, e de me entusiasmar ao pincelar com verniz para fazer sobressair os seus veios. Sempre passei tempo significativo na fábrica, embora gostasse de observar os trabalhadores nas suas rotinas, gostava em especial de lá estar sozinho, a desenvolver pequenos objectos, nem sempre com uma função concreta.
Ao desenhar este novo projeto, decido recorrer à fabrica como lugar primordial para a criação. O objectivo centra-se em arquitectar uma escultura, a emergir como base estrutural para um acontecimento performativo. Trabalho, cansaço, permanência, ócio, resiliência e homenagem são algumas das palavras chave (como sentenças) que proponho ressoarem na minha estadia na fábrica. Recorro naturalmente ao apoio técnico do meu pai. 

Após concluída a escultura, darei início à segunda fase do processo de criação, que passa por transpor o objecto para um estúdio de dança. Esta mutação de lugar, será crucial para unir o corpo vivo à matéria e para o desenvolver de relações performáticas, sejam elas mais de carácter instalativo/contemplativo ou de construção/composição. Será fundamental instigar o processo de montagem, desenvolver rituais de conectividade, sonoridades, explorar a presença/ausência corpórea, o olfato, o tempo e o mapeamento do corpo no espaço na sua relação com o objeto cénico. O estúdio de dança, tal como o palco, é o lugar – na sua gênese - da ficção, da possibilidade imagética e da utopia. O lugar onde o corpo se compõe poético e o tempo como acontecimento, não linear. É também um lugar de trabalho, associado à exaustão, à dedicação, ao sofrimento e à resistência - à construção do bailarino.

Importa notificar, que todo o processo de criação, parte de uma investigação ininterrupta em torno de  intercepções com o conceito trabalho.
Presenciamos e experiênciamos uma era cujo acto de trabalhar se funde com a acto de pausa ou momento de livre-arbítrio – uma condição humana, orgulhosamente escrava dela própria. Corremos em direção a um abismo sem tempo, talvez. O autor Byung-Chul Han na obra "A sociedade do cansaço" refere que "A sociedade disciplinar, tal como Foucault a concebe, formada por hospitais, manicómios, prisões, quartéis e fábricas, já não corresponde à sociedade dos nossos dias. Há muito tempo que ela foi substituída por uma sociedade completamente distinta, uma sociedade de ginásios, torres de escritórios, bancos, aeroportos, centros comerciais e laboratórios genéticos. A sociedade do século XXI já não é uma sociedade disciplinar, mas, sim, uma sociedade de produção". Para além desta obra, transporto comigo textos/ensaios fundamentais tais como “Elogio ao Ócio” de Russell, a ”sociedade do espetáculo” de Guy Debord e alguns textos de Fredy Perlman e Ernst Lohoff.

“Encómio | aos ossos, à bravura e ao sono dos cetáceos” visa ser apresentado em espaços de passagem ou que rompem com a barreira que separa publico/performer, tais como foyers de teatro, museus, praças públicas e/ou armazéns - espaços específicos onde o espectador pode circular livremente, optando pela perspectiva e proximidades da obra que mais lhe convém.



Sinopse

Acontecimento experimental, de carácter performativo e de instalação cénica. Visa ser realizado em espaços cujas características permitam ao público escolher a perspectiva, a distância, e a possibilidade de deambular, neste sentido, o projeto é concebido a 360º.
A performance consiste na montagem, desenho, construção e composição de uma escultura, cuja madeira emerge como matéria elementar na sua produção. A escultura é arquitetada como cânone subjectivo à condição do seu próprio criador e trabalhador, é símbolo de poder, híbrida, e torna-se na sua aparição, presença dominante, que ocupa e metamorfoseia o lugar do performer e do espectador.

Um projeto de e com Flávio Rodrigues