Mapa. Mapeamento. Magma.

Todos nós somos presas de uma espécie de ilusão ética, comparável às ilusões percetivas. A causa fundamental dessas ilusões é que, embora o nosso poder de raciocínio abstrato se tenha desenvolvido enormemente, as nossas respostas ético-emocionais continuam a ser condicionadas por antigas reações instintivas de simpatia perante o sofrimento e a dor que testemunhamos diretamente. É por isso que matar alguém à queima-roupa é, para a maioria de nós, muito mais repulsivo do que pressionar um botão que matará mil pessoas que não podemos ver. 

Slavoj Žižek, in Violência, 2014. 


Pensar a violência. O limite da violência. Quando tudo queima. A evocação do magma, que destrói e, no entanto, gera uma poética na selvajaria imanente na/da destruição. A pertença, a causa instala-se como afirmação de um lugar de fala, de discussão, de não-dependência de fatores para além dos óbvios, da necessidade de definição, de opinião, de axiomáticas para além dos pontos de partida. A violência na afirmação de si, na existência, na possibilidade de um quotidiano desresponsabilizado e, no entanto, entregue a uma tarefa de vigilância constante de si para si, consigo. Encontrar neste lugar paradoxal a potência de um corpo, a uma distância igual à da sua falência. Pensar sobre a violência. As suas inúmeras formas. A sua capacidade de afirmação na invisibilidade. O perigo da invisibilidade. Ela quer-se exposta. Não. Neste lugar, ela camufla-se, evocando-se, tal como a essência de lugares permeados pela identidade. 

Pensar a relação com os objetos. Pensar uma forma de os tornar familiares. A inspiração punk, o skate, a adolescência, a potência de uma liberdade adiada e, ainda assim, presente. Arrebatar-se sem arrebatamento, correr pelas calçadas sem alarido, correr pelos campos a desdobrar um pano. Remeter-se a paralelismos, retas, bicos, polígonos. O losango e o retângulo, a ordem, as diagonais nos centros e não nas diagonais coincidentes. A improbabilidade da direção e do sentido definidos, sendo contínuos, mas em constante reformulação. Uma bússola em reactualização da sua posição em relação ao redor. O som ao redor, o movimento de si, a configuração dos objetos e suas manipulações, são, em conjunto, atores e habitantes de um lugar, Magma. As suas influências mútuas e múltiplas, as suas configurações relativas a si mesmo, as reafirmações, os gritos de ordem, as confirmações de entendimentos de si. As mágoas deixadas para outros lugares, em torno de outros encontros e desencontros possíveis, não cabem neste lugar. Engana-se a expectativa em torno da repetição de ações, remetendo-nos para uma esquizofrenia da potência do auto-aprisionamento do dia-a-dia. 


Corpo 
Corpo enquanto símbolo/lugar de potência e falência. A criação de um lugar que é lugar nenhum e pode ser um lugar qualquer. Aquele momento entre a água fria, plana e sem movimento aparente, e entre a água borbulhante, descontrolada, turbulenta. O momento em que qualquer coisa pode acontecer e, no entanto, fica por acontecer. Pode acontecer no imaginário de cada um de nós, mas não acontece de facto. O acontecimento não interessa, o acontecimento dá-se no mapeamento, na construção. A poética da construção enquanto acontecimento e não o acontecimento em si. Não interessa ir a lugar nenhum, o que interessa é a disponibilidade para estar em todos os lugares construindo um vazio, um lugar nenhum, metafórico sem metáfora, sem nomeação. O lugar de potência é o lugar de falência. O que te empurra, te levanta. O que te destrói foi construído por ti. A conivência na tua destruição. O outro. O outro que és tu. A inutilidade do que não serve, do que não tem lugar, como mote para a construção de um sentido essencial identitário. 

Flávio Rodrigues é um artista que, a partir da sua multidisciplinaridade, constrói um ambiente poético transdisciplinar, onde nada serve ninguém, onde a coexistência é horizontal, embora dinâmica. Existe uma paisagem sonora, uma paisagem coreográfica e uma paisagem cenográfica, e todas elas se vão combinando, como um puzzle por definir. Não há hierarquias definidas, estabelecidas. Existem cohabitações que se vão reformulando através das relações estabelecidas, das velocidades encontradas, das novas noções de sentido que novos objetos transportam consigo. A não-verticalidade associada à hierarquia, o palco como lugar democrático. A caixa branca que revela; o som, o cenário e a coreografia construídos conjuntamente, sem sobreposições de poder. Coposicionando-se. A composição como um mapeamento de um espaço restrito, fechado por regras que não se questionam, libertando-se de pré-conceitos, de pré-definições sobre como a composição pode ser contextualizada hoje. 


Voz de Ordem 
Comando. Voz de comando. Fetiche, obediência, intérprete. Três lados da mesma moeda. Paradoxo ou impossibilidade? Entre dar e obedecer, entre colocar e retirar, entre dobrar e esticar, entre a presença e a ausência, entre o excesso e a falta de ar. Mais uma vez, entre a potência e a falência, através de simbologias reconhecíveis: a voz de comando, um mapa, um véu, uma santa católica, uma mãe-de-santo, um corpo treinado para cumprir ações concretas de forma precisa. Este corpo não vagueia perdido num universo imaginário à procura de si. Ele está ali, ele afirma-se, concretiza-se na manipulação e no jogo que é estabelecido na relação com os materiais. Um jogo desafiador, sem vencedores, infinito, o desafio de si em si, a ultrapassagem, o salto, o esmagamento, a perda, o desencontro. E, no final, o conjunto de possíveis parcerias e revoluções de um jogo que será sempre jogado por quem se recusa a jogar. Um jogo para não-jogadores, para rebeldes. 


Geometria 
Geometria que se inscreve no espaço. É um mapeamento, um conjunto de ordens executadas com pequenos momentos de resistência. Um corpo entre o perfeccionismo e a anarquia, onde a desobediência se camufla por entre uma série de execuções de ordens de comando. Existe uma utilização do espaço muito pouco relacionada com a descoberta de um lugar novo, desconhecido, como em G.O.D. (2015) ou em Efígie (2017), mas como um lugar reconhecido, onde todos os objetos são familiares e manipuláveis. É a geometria de um lugar familiar, obsessivamente arrumado, organizado, com regras apertadas de conduta, onde a rebeldia é a da existência de virtuosismo na abstração, na incerteza, o terceiro lado do dualismo. São sempre percursos poligonais, sem suavizações. Não há curvas, a impossibilidade do “depende” a cada momento: ainda que cada reta possa ser mínima, é preciso ser uma reta, mudando constantemente de posição. No entanto, é contínua. É uma função contínua e derivável por partes ou intervalos. As funções não são constantes, mas são lineares. A não-linearidade dos caminhos percorridos pela perceção; os estudos da presença, a pesquisa das distâncias normativas entre o acontecimento e a sua construção no outro. 


Construção Imagética 
Construção imagética, onde a presença ou evidência de um movimento específico, num loop finito, é intercalado com ações concretas. Este loop pode acontecer com espaços maiores, noutros momentos da peça. O loop como ferramenta de composição central, onde a repetição, a rotina que participa no dia-a-dia, e que nunca se repete exatamente da mesma forma, está presente como elemento fundamental da existência. A repetição na impossibilidade de se ser o mesmo. A analogia do not-the-same-but-the-same, a repetição de um ser que não é, mas que não deixa de ser, sendo em si repatriado. Reformular a rotina, repensar a ação simples, a manipulação do que nos é habitual, do que nos é familiar, a obra de arte inalcançável encontrada no inesperado, no momento irrepetível, de entre os que se repetem. 


Três 
Três. Tri. Trio. Três loops de música, três repetições de secções, triângulos. Intercalados com momentos únicos, de esvaziamento de si. Momentos camuflados, momentos desafiados, momentos reclamados, metafóricos, simbólicos, irrepetíveis. A hierarquia explodiu, aqui constrói-se entre o uno, o trio e o desconhecido. O trio como atravessamento de dois que não se entendem, que não se cruzam, que são paralelos, desafiando a geometria projetiva. O terceiro que vem desabar, que vem atribuir novos terceiros de duos, novas entidades transformadoras. As terceiras causas que não identificamos à partida encontram-se em espaços hermeticamente fechados, blindados, protegidos, salvaguardados. A sua exposição, ao invés do caos, mergulha-nos numa lógica de corte, de limbo. Três zonas cenográficas: zona minada, zona da ação e zona da ausência. Três paisagens sonoras: loop, foguetes e deus. Três blocos de bandeiras, três momentos de unicidade: mapa, balão e alfinete. O corpo, o seu rasto, a memória da sua existência, a precariedade dos processos de revisitação. Rebentar à terceira vez, ao terceiro loop, à terceira repetição. Como rebentar a partir da axiomática estabelecida? É um lugar-comum vindo de outro lugar. É o contrassenso do bom senso. É a tua vida dentro da minha visão de uma vida que não vi, não vivi e não imaginei. Ela aconteceu. Aqui. Neste lugar inominável. Queres ir comigo? Só tens de obedecer, de me seguir, de me repetir. 

A violência da e na obediência, o desencontro dos sentidos de si, a confiança no limite da fragilidade. No limite da selvajaria, o comando, a ordem, a confiança, a reverência e o esvaziamento do sentido único, da unidirecionalidade. A multiplicidade de decisões continuamente reformuladas, mas executadas virtuosamente, hibridam a paisagem coreográfica, tornando-a parte dessa mesma paisagem. Os panos e a sua violência implícita, o chão esmurrado, o grito de ordem, a continuidade da servidão, a reverência a si mesmo e às suas múltiplas representações, o grito mediado no corpo, no som, na cenografia, o medo vencido por uma nova ordem, um recomeço onde a hesitação é erro, onde o desfazer-se não é possível, onde a decisão é a ação mais próxima de uma intimidade estranha e, por vezes, no limbo da detonação. 


Mapa 
Mapa. Mapeamento. Magma. Mão. Metáfora. Mimesis. Metamorfose. Mar. Massacre. Um mapa que mapeia, que se transforma em magma, uma metáfora, possível mimesis, metamorfose, mar. O massacre, a escravidão de si. Transporta a sua dor no mapeamento do mundo em si. Candomblé. Mãe-de-santo. Carnaval. Que fazer quando tudo se esvazia? Que dizer quando as palavras acabam? O que é uma palavra? Mapa é um objeto de Magma – No Limite da Selvajaria. É o objeto mais complexo, que se vai construindo ao longo dos processos de criação e de apresentação, com vários materiais, na sua maioria de plástico. Vai-se metamorfoseando à medida que Magma vai sendo pensado e partilhado, como um mapa em constante reformulação e, no entanto, cujas alterações são quase impercetíveis. A memória é a única salvaguarda de uma existência que se vai diluindo na sua própria extinção e que, por isso, tem de lhe sobreviver, fazer surgir este lugar que será memória, que se extinguirá paulatina mas inevitavelmente. Talvez um exercício de memória sobre essa possibilidade, um exercício de anatomia de memórias presentes, enfeitadas de pano, fita e rigor. Procurar formas de sobrevivência a uma impossibilidade de permanência, de formular sem reformular, de afirmar sem questionar. Acontecer-se como se acontecem as flores que treinam o seu posicionamento, que procuram a luz, a certeza da dádiva, do caminho que se vai percorrendo à medida que as metamorfoses se vão desenhando, em rotinas análogas mas diferentes no tempo, na ordem, na execução, na transição com outras rotinas, também elas informadas por estes elementos influenciadores. 

Um ser. Punk. Um ser que se auto-aprisiona, que constrói a sua teia, a sua forma camuflada de existência. Como permanecer neste lugar neoliberal, onde a poesia é um número e não um espaço aberto? A morte do cisne-ser-militar-selvagem, para voltar ao comando. O comando da dádiva, da partilha, da eficiência. O ego esvaziado, o sentido camuflado, o desejo castrado. Ser-íntimo, ser que se partilha, a nudez. A nudez sem nudez, a nudez num striptease comandado, manipulado, obedecido, fetichizado. Despir-se. Exibir-se. Camuflar-se. Ajustar-se. Metamorfosear-se. A passagem, a mudança, a fragilidade que rapidamente se transforma em ação concreta. Um outro comando, noutra direção. Um ser punk-selvagem-militarizado-cisnógrafo-obediente-na-desobediência-da-sua-ausência, na fragilidade de uma obediência que desafia o limite da sua representação. Volta a si. Veste-se. Volta ao comando. Volta a sentir-se no comando, obedecendo a si. O fumo, o teatro, o cinema, o imaginário, a imagem da representação. A importância da memória, do registo. O registo do seu corpo, o registo do seu discurso, do seu pensamento, da sua existência; a insistência, a declaração de interesses por entre imagéticas preparadas, específicas. 

É assumida a teatralidade das imagens. Não há verdade ou mentira, real ou ficcionado. Há um terceiro que emerge neste discurso, nesta peça, neste lugar. Um terceiro que, inadvertidamente, inesperadamente, inconsequentemente, surge. Sem receio de ser inútil na luta contra, mas na direção da utilidade intrínseca. É um lugar para além da definição ou mesmo da caracterização. É abstrato, ambíguo e, no entanto, feito de ações concretas, específicas, inspiradas no real e, no entanto, representadas através de uma pesquisa sobre a simbologia dos objetos na sua relação com a paisagem sonora e a coreografia, antes e depois e durante os momentos de interação. O teatro não é aqui o lugar do outro, mas sim o lugar da (re)(a)presentação. O outro sou eu mesmo. O outro é ele mesmo. O outro em si mesmo. O outro é o mesmo que é o outro que se encontra em si mesmo. A multiplicidade como possibilidade de ser o outro, sendo ele mesmo; uma construção de si a partir da sua autobiografia. A construção de fronteiras internas, de separações que não separam, criam um terceiro, uma linha que se autorrege e não separa, só se evidencia como outra forma imagética possível. 

Mapear a criação contemporânea é uma tarefa hercúlea para quem a entende num contexto separável, encaixotado, de mapeamento. Sem a diversidade e o inesperado, somos transportados para um lugar de não-contemporaneidade, redutor nas possibilidades de cruzamento. A criação contemporânea é um sistema dinâmico, que inclui múltiplas variáveis, relacionando-se com diversas restrições, com as quais interage e negoceia. Ela acontece através dos seus cruzamentos e da introdução de estudos de caso que interagem, se sobrepõem, permanecem próximos em diferentes graus de proximidade: a do corpo, a da interseção, a do conceito que se pode manipular. A criação artística contemporânea mapeia-se através da documentação, da construção de vários corpos-memória, que permitem colecionar rastos que se vão transformando na história de um tempo por vir. “Depende” não é uma opção. 


Documentação de Telma João Santos
Performer e Matemática. Docente nos departamentos de Matemática desde 2000, e de Artes Cénicas desde 2015, na Universidade de Évora. Desenvolve performances desde 2008, e documenta alguns dos projetos de Flávio Rodrigues desde 2015.