2006 a 2016



Entre 2006 e 2011, Flávio Rodrigues desenvolveu alguns projectos: Brian Slade (2007) ou CATÁLOGO (2008), entre outros, que abordam de forma concreta aspectos autobiográficos e autoreferenciais, como algumas problemáticas ligadas à adolescência e às ligações familiares que a marcaram. Estes elementos são o mote de exploração, onde participam também a dança, como poética transversal, a construção cénica e a sonoplastia como linguagens na acção performativa. 

A partir de 2012, os elementos continuam a ser autobiográficos, agora com uma abordagem assente num questionamento mais “amplo”: “o meu lugar no mundo e “eu” no mundo com os “outros”. Em Starveling (2012), ao som da obra emblemática “The rite of spring”, é elaborada uma partitura coreográfica com base nos acontecimentos ligados à “Primavera árabe” a insistência ,“(...) a detonação do medo e a falência de todos os sistemas que sublinham a angústia do fim”. 

Em 2013, após uma viagem ao Brasil, iniciou-se o projecto RARA, que surge a partir da exploração da emigração como ponto essencial de pesquisa, uma prática comum no lugar onde (sobre)vivemos. Observar e materializar as fragilidades do universo onde “actuo” provocou o desenvolvimento de um trabalho que se aproxima de um manifesto poético e subjectivo. 

Na performance VERSE$ (2014), é gerado um mapa coreográ fico a partir de resíduos sonoros de anteriores criações. Na paisagem sonora desta performance, é notória a presença de um mundo em conflito: registos de guerra (Iraque) com composições barrocas, sons de florestas, cânticos religiosos invertidos (...). Em VERSE$ foi também importante a elaboração de uma “figura” globalizada: um corpo que se move captando referências díspares, que permeia lugares que não são conhecidos, embora similares. As novas tecnologias e o acesso a informação são essenciais como plataformas que permitem a apropriação e recriação simpli ficada e estereotipada de culturas ou subculturas. 

Em G.O.D. (2015), o discurso coreográfico teve como foco a projeção do mundo numa maquete habitada por “um corpo e uma dança globalizada”. Este foi o primeiro solo em que Flávio Rodrigues não é intérprete, as possibilidades que permitem mapeamentos foram claramente manipuladas, surgindo assim o intérprete como metáfora/projecção/narrativa de paradoxos, evocação e transformação de desejo, em diálogo contínuo. Esta é uma peça de “mudança”, onde se finaliza um ciclo centrado na autobiografia enquanto reflexão sobre questões essenciais do self, para dar início a uma nova fase de criação, onde esta autobiografia faz parte de uma reflexão sobre o mundo atual, ou como o contexto é essencial na criação artística. 

Em AIM (2016), em que Flávio Rodrigues volta a ser criador e intérprete, o Medo, o Fim e a Extinção são explorados a partir do conflito e da ameaça em direção ao vazio. Interessou neste projecto, essencialmente, a criação de uma obra em que transpareça a fragilidade de simplesmente existir no mundo atual. Para a performance Efígie, é proposta uma composição sonora, cénica e coreográfica em torno das relações entre a auto-representação, auto-referência e autobiografia e na forma como elas são abordadas em espaços intermédios, espaços de fronteira, onde se mesclam várias influências. Nas palavras de David Le Breton, em A Sociologia do Corpo: “moldado pelo contexto social e cultural em que o actor se insere, o corpo é o vector semântico pelo qual a evidência da relação com o mundo é construída: actividades perceptivas, mas também expressão dos sentimentos, cerimónias dos ritos de interação (...) produção de aparência, técnicas do corpo, exercícios físicos, relação com a dor, com o sofrimento, etc”. 
O corpo, na vida quotidiana como em cena, é o eixo da relação com o mundo: “antes de qualquer coisa, a existência corporal”. Este projecto pretende reflectir, com uma equipa pluridisciplinar, sobre o espaço poético da auto- representação na fronteira entre contextos definidos, ou espaços intermédios, onde a neutralidade e a mistura de referências estão presentes, bem como as suas intersubjectividades relacionais. É uma construção de micro ecossistemas de memórias em confronto com a actualidade, a ingenuidade e o medo no contexto do desconhecido. É, portanto, uma coreografia da descoberta.

Texto de Telma João Santos