MAGMA


“É preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. (…) É preciso acreditar no sangue como parte importante da vida. A truculência é amor também.” Clarice Lispector


Magma é um poema sonoro, cénico e coreográfico.

Neste solo, exploro um imaginário que se sustenta no vazio e na impotência relacional, onde a violência e o poder colapsam na solidão e no silêncio. É uma guerra sem guerra, a sós. A violência a destruir e construir o tempo, ele a des-habitar-se no percurso. 
Um ser-cápsula, múltiplo, representação poética pela e com liberdade. Como nos refere Maria Tereza Sadek “O resgate do genuíno espírito revolucionário e, em consequência, do acto intencional de fundação da liberdade, é um dos desafios propostos (…). Talvez seja esta a única forma de se escapar do terror, da perda do espaço público. Afinal, a ameaça de violência e da imposição do silêncio não é um traço exclusivo da guerra”.

Magma é construído a partir da ausência, onde os objetos sonoros, cénicos e coreográficos se tornam presentes nas analogias, interferências e conexões estabelecidas entre si. Estes, concorrem para a construção de uma narrativa poética, um ato revolucionário que em si transporta os medos e os paradoxos da existência.
Situar, permanecer e mapear são os motes exploratórios para este solo-poema, uma caminhada solitária carregada de memórias, metáforas, medo, silêncio, violência, dor, coragem, amor, desistência e resistência. A efemeridade do momento presente, a reformulação de contextos que permitam habitar um lugar, um corpo, um palco. A escuridão da fuga, a luz da mudança, o ar irrespirável que se transforma em balão de oxigénio, o desejo de existir sempre presente.

No palco (aqui, campo representativo da falência da utopia), sou o último filho do sonho e da esperança, figura que sucede o big brother, o punk como cultura e a anarquia como ideologia.
O gesto (ou a dança) que emerge paulatinamente é doente devido ao ar violento e venenoso que é respirado na urgência que lhe é intrínseca. 
Bem-vindos à guerra niilista. Consciente. Primária. Parente direta da zona mais escura da tecnologia. E no decorrer da guerra está patente um outro medo: que a natureza decida dar de si e nos entregue de mão livre a nunca esperada catástrofe ecológica.


criação e interpretação de Flávio Rodrigues

conceção técnica de Daniel Oliveira
intérprete no processo com Bruno Senune
apoio vocal com André Santos
consultoria no figurino com Sofia Calvin
execução do figurino de Flávio Rodrigues e Idalina Fonte
consultoria sonora com Gustavo Costa
aconselhamento artístico com Carlota Lagido e Mariana Amorim
registo audiovisual de Eva Ângelo
fotografia de cena/ Pedro Figueiredo
documentação/documentation Telma João Santos
apoio Útero
estruturas associadas ao projecto: 23 Milhas (Ilhavo), Teatro de Ferro (Porto), Festival ContraDança (Covilhã), Eira (Lugar à Dança), Balleteatro (Coliseu, Porto);
co-produção de Teatro Nacional São João