Efigie | Documentação

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Entre 2006 e 2011, Flávio Rodrigues desenvolveu alguns projectos: Brian Slade (2007) ou CATÁLOGO (2008), entre outros, que abordam de forma concreta aspectos autobiográficos e autoreferenciais, como algumas problemáticas ligadas à adolescência, ou mais concretamente a ligações familiares que a marcaram. Estes elementos são o mote de exploração, onde participam também a dança, como poética transversal, a construção cénica e a sonoplastia como linguagens na acção performativa.

A partir de 2012, os elementos continuam a ser autobiográficos, agora com uma abordagem assente num questionamento mais “amplo”: “o meu lugar no mundo e “eu” no mundo com os “outros”. Em Starveling (2012), ao som da obra emblemática “The rite of spring”, é elaborada uma partitura coreográfica com base nos acontecimentos ligados a “Primavera árabe” a insistência ,“(...) a detonação do medo e a falência de todos os sistemas que sublinham a angústia do fim”.

Em 2013, após uma viagem ao Brasil, iniciou-se o projecto RARA, que surge a partir da exploração da emigração como ponto essencial de pesquisa, uma prática comum no lugar onde (sobre)vivemos. Observar e materializar as fragilidades do universo onde “actuo” provocou o desenvolvimento de um trabalho que se aproxima de um manifesto poético e subjectivo.

Na performance VERSE$ (2014), é gerado um mapa coreográfico a partir de resíduos sonoros de anteriores criações. Na paisagem sonora desta performance, é notória a presença de um mundo em conflito: registos de guerra (Iraque) com composições barrocas, sons de florestas, cânticos religiosos invertidos (...). Em VERSE$ foi também importante a elaboração de uma “figura” globalizada: um corpo que se move captando referências díspares, que permeia lugares que não são conhecidos, embora similares. As novas tecnologias e o acesso a informação são essenciais como plataformas que permitem a apropriação e recriação simplificada e estereotipada de culturas ou subculturas.

Em G.O.D. (2015), o discurso coreográfico teve como foco a projecção do mundo numa maquete habitada por “um corpo e uma dança globalizada”. Este foi o primeiro solo em que Flávio Rodrigues não é intérprete, as possibilidades que permitem mapeamentos foram claramente manipuladas, surgindo assim o intérprete como metáfora/projecção/narratica de paradoxos, evocação e transformação de desejo, em diálogo contínuo. Esta é uma peça de “mudança”, onde se finaliza um ciclo centrado na autobiografia enquanto reflexão sobre questões essenciais do self, para dar início a uma nova fase de criação, onde esta autobiografia faz parte de uma reflexão sobre o mundo actual, ou como o contexto é essencial na criação artística de contextos mais globais.

Em AIM (2016), o Medo, o Fim e a Extinção são explorados a partir do conflito e da ameaça em direcção ao vazio. Interessou neste projecto, essencialmente, a criação de uma obra em que transpareça a fragilidade de simplesmente existir no mundo actual.

Para a performance Efígie, é proposta uma composição sonora, cénica e coreográfica em torno das relações entre a autorepresentação, autoreferência e autobiografia e na forma como elas são abordadas em espaços intermédios, espaços de fronteira, onde se mesclam várias influências. Nas palavras de David Le Breton, em A Sociologia do Corpo: “moldado pelo contexto social e cultural em que o actor se insere, o corpo é o vector semântico pelo qual a evidência da relação com o mundo é construída: actividades perceptivas, mas também expressão dos sentimentos, cerimónias dos ritos de interação (...) produção de aparência, técnicas do corpo, exercícios físicos, relação com a dor, com o sofrimento, etc” (p.7). O corpo tanto na vida quotidiana como em cena é o eixo da relação com o mundo: “antes de qualquer coisa, a existência corporal” (p. 7).
Este projecto pretende reflectir, com uma equipa pludisciplinar, sobre o espaço poético da autorepresentação na fronteira entre contextos definidos, ou espaços intermédios, onde a neutralidade e a mistura de referências estão presentes, bem como as suas intersubjectividades relacionais.
A reflexão estará centrada nas questões anteriores a partir de processos experimentais onde participam várias técnicas de movimento em dança contemporânea, bem como vários figurinos que permitam gerar imagens referenciais. Neste processo, intervêm vários performers, de forma a gerar várias possibilidades e dinâmicas de construção de sentido, bem como várias pessoas que pariticpam na constução de um pensamento sobre as várias referências teóricas e dramatúrgicas identitárias contextuais, em espaços intermédios. Também a construção de figurinos é essencial para a construção de uma metamorfose imagética como narrativa poética. 



A criação artística actual, nas suas múltiplas e variadas expressões e técnicas, comporta em si a compreensão de espaços in between, ou espaços entre, paradigmas estabelecidos, ou reconhecíveis, e a transformação destes, através de várias técnicas e relações intersubjectivas entre os agentes envolvidos no processo, em objectos artísticos. Estes espaços surgem de uma necessidade de alargar o espectro das oposições, do preto ou branco, dos dualismos cartesianos onde a emoção e a razão estão em conflito e só existe um vencedor. Deixámos a perspectiva de um olhar específico sobre a verdade, ou as suas variações, todas elas bem definidas e explicadas. Deixámos de querer explicar, queremos compreender como negociar, como encontrar possibilidades harmónicas entre ideologias e vivências aparentemente opostas e não conciliáveis. Gritamos para que consigamos encontrar poéticas do espaço, do lugar, do indivíduo contextualizado, mas não balizado, onde as pontes são antes fios de uma rede complexa de relações intersubjectivas.


Efígie pretende questionar fronteiras entre o local e o global, entre eu e o “outro”, em três direcções: narrativa imagética, autobiografias interligadas e criação interdisciplinar. Neste projecto, a dança contemporânea e o trabalho com figurinos são motores para a construção de um lugar poético a partir da biografia dos participantes no projecto, e das suas relações com os tecidos, padrões, e sonoplastias de várias influências. É assim desenvolvida uma construção coreográfica onde são trabalhados movimentos que permitam uma metamorfose na percepção do espectador, onde a construção de figurinos intervém também como elemento narrativo. Existem vários participantes convidados neste projecto, mas apenas um intérprete, que é um receptor e difusor do trabalho experimental desenvolvido e que desenvolverá um trabalho de relação intersubjectiva entre os vários elementos coreográficos e autobiográficos. Esta relação intersubjectiva resulta numa sucessão complexa de imagens que se vão metamorfoseando ao longo da peça, construindo uma narrativa imagética a partir do corpo e da imagem.

Em Efígie, a partir de uma ideia inicial de zona ou espaço de fronteira, onde a tensão entre uma harmonia de neutralidade e a multiplicidade de influências muito diversas e distantes está presente, a construção da peça é desenvolvida a partir da relação dos participantes com o material proposto. As autobiografias interligam-se gerando um olhar poético no contexto de tensão referido. Neste projecto existe um pressuposto interdisciplinar, onde as artes visuais, a sonoplastia, os figurinos, os textos, abordagens teóricas, e a dramaturgia da peça são desenvolvidos em conjunto, num diálogo entre o que se pretende, o que se vai descobrindo e a pertinência dos mesmos.




Concepção, interpretação, composição coreográfica e sonora Flávio Rodrigues

Participantes no processo de pesquisa Bruno Senune, Filipa Duarte e Telma João Santos

Figurino com a colaboração de David Pinto

Consultoria e documentação Telma João Santos

Apoio dramatúrgico André Uerba

Desenho de luz Vera Mota

Registo Fotográfico Rita Delille

Registo de vídeo Eva Angelo

Consultoria de gestão
 Heurtebise