Efígie




Dou inicio a este projecto com a concepção de um arquivo sonoro, videográfico e fotográfico de animais e plantas extintas, lugares mortos e paisagens obliteradas que resultam numa “biblioteca do esquecimento”, funcionando como um conjunto de estímulos para a criação de um corpo, de cores, texturas e sons. O corpo, construtor do movimento e do espaço cénico, viaja através de uma floresta (panorama / orto utópico) referente a uma não-civilização, à neutralidade, ao niilismo, e à negação de um sistema capitalista. Vagueia por uma memória primordial, na possibilidade de manipular o tempo, recuá-lo, recuperá-lo. Este corpo, a que chamo agora transeunte, encontra-se também, a desaparecer na escuridão, no abismo, na queda, na ameaça do desaparecimento, tal como a acção (performance). Quando a acção termina ou se dissimula, o corpo deixa de ser performático? 

Emerge assim, a figura de um palhaço, que atinge o máximo da tristeza no limite da felicidade. No limiar da ficção e na relação com a presença de um olhar observador (público), surge um espectro de extinção de tudo e de um todo, o fim do nada, uma luz verde distante mas em modo de aproximação. Uma visão /ilusão positiva, portanto. Depois de tudo, surgirão outros tudos. A luz no fundo do túnel não é mais do que um outro túnel e outra uma luz, ininterruptamente.

Como continuar a caminhar por uma floresta continuamente ameaçada? O que é a natureza hoje como metáfora para um “antes de”, intocado, original? Quais as condições para a descoberta de tais lugares, e que fantasmas escondem?

Efígie é também uma metáfora para a criação, para a arte, para o corpo (aqui do artista), responsabilizando-o pela sua invencível e forçosa, talvez morte, apesar da inevitável regeneração. 

Em Efígie, a exploração de som enquanto matéria narrativa percorre estados perceptivos que se vão metamorfoseando por entre a derrota e a esperança. A insistência como resistência, por entre espectros e espíritos que se transformam e convergem para o desconhecido. A arte como metáfora para uma poética, para um ritual de despedida, para que não desapareça por entre árvores e esquecimento.

Passagem das horas
Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido
[...]
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
[...]
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
[...]
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos
[...]
Álvaro de Campos


Composição sonora, coreográfica, cénica e interpretação de Flávio Rodrigues
Interprete no processo e apoio dramatúrgico: Carolina Macedo
Documentação: Telma João Santos
Apoio no figurino: David Pinto
Interprete no processo: Alfredo Bertino
Execução do figurino: Idalina Rodrigues Fonte
Apoio Vocal: André Santos
Consultoria artística: Mariana Amorim e Bruno Senune


Estruturas associadas: Armazém22 (Vila Nova de Gaia), MalaVoadora.Porto (Porto), DevirCapa (Algarve), ContraDança (Covilhã), Maus Hábitos / Associação Saco Azul (Porto), (Festival DDD - Biblioteca Municipal do Porto (Porto) e Biblioteca Municipal de Matosinhos (Matosinhos), Balleteatro, Temps d’Images;







- Vídeo Teaser #1 
- Video promocional / Excertos 


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Residências de criação e pesquisa | Creation and research residences 
#1 Armazém22 | Vila Nova de Gaia 
#2 Mala Voadora | Porto


Projectos paralelos e Trabalhos em processo | Parallel projects and Work in progress

#1 Efígie | Chorus Landscape - Festival Dias Da Dança (DDD out, Corpo + Cidade), Porto
#2 Efígie | Dilúvio das águas mortas - Inserido no Programa "E agora?" com curadoria de Susana Chioca em Maus Hábitos, Porto