Notas: Cuidados intensivos (2013)

Notas: Cuidados intensivos (2013)

PT
- Desenvolvo os meus próprios projectos, maioritariamente a solo, centrados quase sempre, num trabalho sobre e a partir do corpo, em projectos de natureza formalmente transdisciplinar e conceptualmente (auto)referencial e (auto)biográfica.

A autobiografia surge como forma de dar início a um processo de investigação: uma acção ou memória (pertencentes à minha vivência pessoal). Por exemplo, no solo "Tarde demais Mariana (2006)" a memória da minha primeira casa (arquitectura) é a base para a construção de uma escrita ou partitura. O corpo ocupa o espaço que a memória inventou. Também em "Still golden" a casa surge como ponto de partida: uma revisitação. 

A ausência de movimento (refiro-me à coreografia formalmente escrita) nas minhas peças não é uma exigência ou um foco que sigo: naturalmente tendo a levar para estúdios outras formas de abordar a presença do corpo: fascina-me a fotografia (pela captação do momento e a possibilidade de permanência), a criação de vídeo (pela posterior possibilidade de editar e criar visões paralelas, alterar o tempo de acção), a criação de paisagens sonoras e a imagem como potência.

- Para "Rara" o meu último solo, interessou-me a captação de sons como forma de criar uma paisagem. E é nesta paisagem que o corpo habita: está para além daquilo que se pode ver, há um foco primordial naquilo que se ouve. 

Esta peça surge após uma viagem ao Brasil: uma relação de amor e ódio: amo o Brasil / odeio o Brasil | quero ir embora / quero voltar. 

- Em "Rara" falo de favelas douradas, do turismo, do puto manhoso / rebelde, do paraíso que tapa o lixo, da ambiguidade de terrenos e da emigração.

O género, a sexualidade, o coração (sentido figurativo para amor e o seu oposto), a família, a casa (lugar): a utopia como destino.

- Não é preto nem branco, à um lugar que se perde na definição. E é aí que encontro o queer (estranho, inexplicável, subjectivo, esquisito, desconhecido, indefinido, disforme (…). Também o deserto, ermo e vazio. A poesia.

- Gosto de me perder nos processos criativos: Contudo, por vezes pela necessidade de voltar a traz ou começar tudo de novo, o ponto de onde parto, gosto que seja um terreno palpável e seguro.

- Gosto da sensação de estar perdido, de perder o controlo sobre o que me move para a criação. Por vezes termino uma peça sem saber exactamente do que estou a falar (refiro-me às mutações e sobreposições que a peça adquire). Mas isto não me assusta. 



Notes: Intensive Care (2013)

ENG
– I set up my own projects, mostly solos, by almost invariably focusing them and starting from work on the body . These projects have a formal cross-disciplinary nature and they are conceptually (self‑)referential and (auto)biographic.

– Autobiography emerges as a way to begin an investigation process: An action or memory (from my own personal experience). For example, in the solo Tarde demais Mariana (2006) [Too late Mariana] the memory of my first house (architecture) is the foundation for the construction of a style of writing or score. The body takes up the space that memory invented. In Still golden again the house arises as a starting point: A revisitation.

– The absence of movement in my plays (I mean the formal written choreography) isn’t either a demand nor the search for a focal point – naturally I tend to take into studio other ways of tackling with the presence of the body: I’m fascinated by photography (because it captures the moment and it allows some kind of permanence), by video creation (because of the range of possibilities it allows while editing, in creating parallel visions, or in changing the action time), by the creation of soundscapes and by the image as power.

– In Rara [Rare], my last solo, I was interested in capturing sounds as a form of creating a landscape. And it is in this landscape that the body lives: It is beyond what the eyes can see, there is a central focus on what we listen to.

– This piece arose after a trip to Brazil: a love‑hate relationship – I love Brazil / I hate Brazil – I want to leave / I want to go back there.

– In Rara I deal with golden favelas, tourism, the sly / rebellious kid, the paradise covering the trash, the ambiguity in different fields and emigration.

– Gender, sexuality, the heart (metaphorically meaning love and its opposite), family, home (place): having utopia as destiny.

– It is neither black nor white, there is a place lost in the definition. And that is where I find the concept of queer – strange, unexplainable, weird, unknown, undefined, shapeless (…). And the desert, forsaken and empty. Poetry.

– I like to get lost in creative processes: in spite of this, sometimes, I have the need to go back or start everything all over again, so I prefer the starting point to be safe and solid ground.

– I like the feeling of being lost, of losing control over what compels me to creation. Every now and then I finish a piece without really knowing what I’m talking about (I mean the mutations the piece undergoes and the multiple layers it gets in the end). But that doesn’t scare me. 


Flávio Rodrigues