G.O.D. | Documentação



#1

Não sabemos a sua origem, apenas percebemos que se encontra neste lugar. Chamamos-lhe lugar porque ainda está por nomear. Perdeu-se e ficou só. A solidão não mata, mas paulatinamente transforma acções concretas em conceitos e reflexões sobre os mesmos. Ele perde-se sabendo exactamente como reagir, ainda que não saiba onde chegar. Não é a certeza do fim, é a segurança do que está por detrás das suas acções em cada momento. É ele sabendo dos outros, são os outros nele.

É azul. Ou traz o azul consigo. Blue. Triste, marítimo, carnavalesco, festivo e saudosista portanto. De um outro lugar, de um estado ausente mas que se vai tornando presente ao longo do espectáculo. Um peixe, um pássaro, a fragilidade na convicção da acção. É híbrido, é brilho, é o ritual a transformar-lhe as entranhas, é a Britney a querer mais, lânguida e sexy com uma arma na mão. É o não-género, cuja sexualidade está colocada na tensão constante sobre as acções concretas, o constante delineamento deste lugar, nomeando-o com as suas impressões digitais, com a sua tentativa de demarcação concreta de um espaço.

É uma viagem. Uma viagem ao universo individual depois da tempestade, da perda, do fim. O fim já foi. E a vida continuou. E é tempo de existir. Estar, olhar, observar, descobrir, perder a noção de si para se poder encontrar. é um redefinição de si na sua multiplicidade e relação com o mundo, também ele perdido a encontrar-se, também ele à espera de referências reformuladas, também ele à espera de nomeação. É nesta relação dinâmica e contínua que G.O.D. se estabelece, num vazio precioso e permeável. Instala-se como axioma do que está por vir, mas que já é. É o futuro numa taça de gin abrilhantado de azul, onde a festa, a atitude, a força e o inesperado se juntam e formam vida.


#2

O universo parou quando lhe aconteceu o fim. Um lapso na relação espaço-lugar fez com que o tempo colapsasse e ele se encontrasse aqui, connosco. Apresenta-se com um ar seguro e olha-nos nos olhos. Desafia-nos a olhar, a esperar que algo aconteça. Ninguém previa o fim. Muito menos ele. Os lapsos espaço-lugar são raros e não se pretende que o fim lhes suceda. O fim era azul. Um azul de festa, um carnaval de arrebatamentos. Um azul que permite que se encontre aqui, connosco. Ele é azul. Ele é mar. É fragilidade. É segurança. É início. Ele inicia-se. Dá-se a conhecer. Pretende instalar-se. Apresentar-se. Não quer explicações.

Quer pesquisar, procurar, perder-se, marcar e remarcar territórios concretos. Aqui, connosco. Quer afirmar-nos a sua existência na perda, na procura, numa redefinição dos materiais que lhe permitem desmultiplicar-se em formas de estar, e de restabelecer a relação espaço-lugar. Não quer que ela aconteça de forma forçada. É uma descoberta. É uma instalação de si, não uma demonstração ou caracterização de algo que lhe pertence. É ele. Aqui, connosco. Híbrido, sensual, forte, ideal, aberto e contido, conciso.
Ao fim de algum tempo, sentimo-nos com ele. Ele instala-se e nós vamos descobrindo com ele. Não, não é pessoal. Não estamos dentro dele nem ele nos conquistou. Acompanhamo-lo. Vamos assistindo de forma contínua o seu percurso, a música que gera uma variedade de sensações e emoções pela reconquista de um espaço-lugar, pela variedade de formas de o abordar. é um começo. Ou recomeço. Inicial, iniciático. Reconfigurado num tempo que é hoje. Aqui, connosco. G.O.D. – Goddess of Desire, a imanência, o corpo-sem-órgãos, a matriz intersubjectiva, numa quase-liquidez identitária.


#3

G.O.D. é uma peça, uma performance, onde não é possível procurar no concreto a seu sentido e o seu propósito. É uma peça que não se propõe ser literal ou concreta, não questiona concretamente conceitos, mas sim propõe um mapeamento etéreo de estados de percepção associados à exploração do indivíduo, que estando só, não o está, relativamente ao mundo. É um universo de sentidos, memórias, interelações, subjectividades,

G.O.D. não é uma peça que representa como forma de entendimento conceptual, mas sim onde estão também presentes a exploração e as formas de fazer e olhar como ferramentas que, juntamente com as experiências biográficas, permitem a construção de um acesso à compreensão do mundo, da actualidade e da forma como apreendemos de forma múltipla.  Esta peça assume também um lado de colaboração e de procura de novos lugares de entendimento, como parte de um conjunto de novas abordagens artísticas onde deixam de ser as formas de representação a ferramenta principal de construção de um “pensamento artístico” mas sim a acessibilidade nas suas múltiplas variedades em contextos biográficos no contexto da criação.

G.O.D. é ele. G.O.D. sou eu. G.O.D. és tu. G.O.D. é cada um de nós numa procura de si enquanto indivíduo contextual, denso, e único na sua multiplicidade. G.O.D. é contexto. É aberto a multiplicar, desmultiplicar, acrescentar, reduzir, perdoar, aprender, apreender, comunicar. A comunicação é pessoal. Não é parte de uma amálgama. É biográfica e resistente. Insistente e consistente. Amor numa panela que se perdeu no mar e que se vai libertando de forma cuidadosa e ligeiramente oscilante, num bambolear de quadris, joelhos, braços, mãos e dedos, intercalado com uma afirmação de si.












Por Telma João Santos

Concepção coreográfica e sonora de Flávio Rodrigues
Interpretação de Bruno Cadinha
Fotografias de José Caldeira

Co-produção Teatro Municipal Rivoli