2015 - G.O.D. | goddess of desire


"In the beginning was the scream. And then what?" John Holloway


PT
Tal como em VERSE$ (2014), existe em G.O.D.  | goddess of desire  a construção de uma paisagem sonora – feita em Homestudio - como casa que o corpo habita e a partir da qual sãogeradas possibilidades de mapeamento de territórios. Esta relação entre a construção de som a partir do qual emergem possibilidades e a partitura coreográfica gerada, bem como a relação entre uma banda sonora como casa-mãe de um corpo que a partir dela se move e se transforma , têm sido centrais no meu trabalho. Esta partitura coreográfica pretende-se bastante aberta e flexivel, propondo um corpo em constante movimento que mapeia e se inscreve, que se (des)territorializa.
Neste projecto o corpo não é o meu. As possibilidades que permitem mapeamentos são claramente manipuladas, surgindo assim o intérprete como metáfora/projecção/narratica de paradoxos, evocação e transformação de desejo, em diálogo contínuo. Este é o primeiro solo que não interpreto, e onde está presente uma visão exterior que controla e manipula, G.O.D.. Existe também um outro “corpo” de escrita, documental como um outro gerador de possibilidades e que produz ao longo do processo uma outra camada de sentidos e direcções. Este “corpo” é uma outra visão exterior que anota, corta, recorta, refaz, contextualiza e descontextualiza. É descritivo, questionador, espanador, (des)territorializador, épico e gerador de outros, onde G.O.D.  | goddess of desire  é o “aqui e agora”, o “tudo ou nada”, a “epifania”, o “desmaio”.

Em G.O.D.  | goddess of desire celebra-se a dança como sendo em potência a última (The Last Dance), como uma festa onde o apocalipse é o limite. A dança (na sua poética) derrete o gelo na antártica, aumenta o buraco na camada de ozono, provoca o conflito em Gaza, separa a Ucrânia, descobre e extrai petróleo, esconde ou destrói a “cura”, encontra um novo vírus, provoca a falência no Vaticano (...). A festa, portanto: enquanto faço twerk o mundo cai paulatinamente aos meus pés. A preocupação política descansa na preguiça, é o grito versus o silêncio. A partitura é criada a partir da apropriação de várias referências prontas a habitar o meu corpo, que estão de alguma forma ligadas à terra, como por exemplo o samba ou o funk. G.O.D. é a evocação de algo superior, divino (transe) a partir da relação de um corpo com a terra através de danças referenciais: Goddess of Desire.


EN
As in VERSE$ (2014), in G.O.D.  | goddess of desire  there is the construction of a soundscape – made in Homestudio – as a house that the body inhabits, and from which it is possible to map territories. This relationship between sound construction, from which possibilities emerge, and the choreographic score generated, as well as the relationship between a soundtrack as a home – the mother of a body from which it moves away and transforms, have been central to my work. This choreographic score aims to be open and flexible, proposing a body in constant movement that maps and subscribes, and de-territorializes itself.

In this project, the body is not my own. The possibilities that allow for the mapping of territories are clearly manipulated, hence the interpreter emerges as a metaphor/projection/narrative of paradoxes, evocations and transformation of desire into continuous dialogue. This is the first solo show where I am not the interpreter, which gives me the opportunity to be an outside viewer which controls and manipulates, in short, to play God (G.O.D.). There is also another “body” of writing, which also generates possibilities that produce another layer of senses and directions throughout the process. This “body” is an outside view that annotates, cuts, recuts, remakes, contextualizes and decontextualizes. It is descriptive, questioning, dusting, de-territorializing, epic; a generator/creator of others, where G.O.D. is the “here and now”, the “all or nothing”, the “epiphany”, the “faint”.

In G.O.D.  | goddess of desire  dance is celebrated as being potentially at an end(The Last Dance), as a party where the apocalypse is the limit. The Dance (in its poetics) melts the ice in Antarctica, increases the Hole in the Ozone Layer, causes the conflict in Gaza, separates Ukraine, finds and extracts oil, hides or destroys the “cure”, finds a new virus, causes the failure in Vatican (…). So, the party: while I twerk the world falls gradually to my feet. The political concern rests in the laziness; it’s the scream versus the silence. The score is created from the appropriation of several references ready to inhabit my body, which is also in some way connected to the ground, like for example samba or funk. G.O.D. is the evocation of something superior, divine (transe) coming from the relationship of the body with the ground through referential dances: The Goddess of Desire. 



Scenic, Choreographic and Musical Conception of Flávio Rodrigues
Interpretation Bruno Cadinha
Documentation Telma João Santos
Support: "Um lugar para a dança" | EIRA, Balleteatro, Galeria ZDB e Teatro de Ferro
Thanks: Nome Próprio

Presentations and residencies: EIRA| Lugar para a Dança (Lisboa, PT). Galeria ZDB (Lisboa, PT). Projecto criado em co-produção com Teatro Municipal Rivoli (Porto, PT);

Agenda:
- 26 de Janeiro a 1 de Fevereiro - Residência de Criação (EIRA|Um lugar para a dança);
- 22 de Fevereiro a 3 de Março - Residência de Criação (Galeria ZDB);
- 7 de Março | Estreia (Teatro Municipal Campo Alegre, Café-Teatro);

Fotografias ©José Caldeira





Vídeo Teaser


Vídeo completo | Full video




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Residência de pesquisa: 4 a 13 de janeiro de 2015 em Teatro de Ferro (Porto):
Antes de começar o processo de criação de G.O.D.  | goddess of desire, decidi estar 10 dias em residência de criação e pesquisa no Teatro de Ferro. A ideia seria testar materiais (sejam eles cénicos, objectos de manipulação ou coreográficos) objectivando a preparação de um processo de partilha com outro performer/bailarino/interprete (Bruno Cadinha). 
Para esta pesquisa levei comigo a emblemática paisagem sonora Oratorium nach den Bildern der Bibel, composta por F. Mendelssohn Hensel e vários materiais/matérias (tijolos, bóias de praia, uma tenda azul e diferentes qualidades de fios). Embora o projecto tenha tomado outro tipo de  direcções, acredito que esta residência tenha sido elementar, e por isso decidi expor publicamente algum do material aqui conseguido. As fotografias são de Carla Valquaresma e o video de Bruno Senune.