G.O.D. (goddess of desire)

"In the beginning was the scream. And then what?" John Holloway



Sinopse 1 (Dezembro, 2 de 2014)
"Till the World Ends” é o título de uma canção interpretada por Britney Spears, que é o segundo single do seu sétimo álbum de estúdio, Femme Fatale, de 2011. A música foi composta por Kesha, Alexander Kronlund, Dr. Luke e Max Martin e o vídeo que a promove foi lançado a 6 de abril de 2011 sob a direcção de Ray Kay. As cenas deste vídeo mostram B. Spears numa festa subterrânea com alusões a um ambiente apocalíptico, e onde é referido o dia 21 de Dezembro de 2012. Esta é a data em que termina o Calendário Maia com o ciclo de 5125 anos.

É com este acontecimento que dou início a um novo projecto, onde emerge uma série de ramificações a partir da ideia de construção de uma árvore genealógica (errada - ou muito particular), a que chamei G.O.D. . Esta árvore é a simbologia encontrada para a criação de uma nova partitura coreográfica e sonora, onde estão representados “Thriller” de Michael Jackson, “Wall-E” de Andrew Stanton, a bíblia, a última coca- cola do deserto, a anaconda, o "Change the world without taking power", o hyper consumo, as chamadas "pinturas de género" de J. H. Fragonard, Andy Warhol e o supermercado, o buraco na camada de ozono featuring illuminatis, e a dança "genial". Estas são algumas das conexões que projectam um lugar para a criação de uma paisagem sonora (remix), que por sua vez será a base para um corpo que se move e se metamorfoseia.

Tal como em VERSE$, (2014) existe assim em G.O.D. a construção de uma paisagem sonora – feita em Homestudio - como casa que o corpo habita e a partir da qual sãogeradas possibilidades de mapeamento de territórios. Esta relação entre a construção de som a partir do qual emergem possibilidades e a partitura coreográfica gerada, bem como a relação entre uma banda sonora como casa-mãe de um corpo que a partir dela se move e se transforma , têm sido centrais no meu trabalho. Esta partitura coreográfica pretende-se bastante aberta e flexivel, propondo um corpo em constante movimento que mapeia e se inscreve, que se (des)territorializa.

Neste projecto o corpo não é, pela primeira vez, o meu. As possibilidades que permitem mapeamentos são claramente manipuladas, surgindo assim o intérprete como metáfora/projecção/narratica de paradoxos, evocação e transformação de desejo, em diálogo contínuo. Este é o primeiro solo que não interpreto, e onde está presente uma visão exterior que controla e manipula, G.O.D.. Existe também um outro “corpo” de escrita, documental como um outro gerador de possibilidades e que produz ao longo do processo uma outra camada de sentidos e direcções. Este “corpo” é uma outra visão exterior que anota, corta, recorta, refaz, contextualiza e descontextualiza. É descritivo, questionador, espanador, (des)territorializador, épico e gerador de outros, onde G.O.D. é o “aqui e agora”, o “tudo ou nada”, a “epifania”, o “desmaio”.

Em G.O.D. celebra-se a dança como sendo em potência a última (The Last Dance), como uma festa onde o apocalipse é o limite. A dança (na sua poética) derrete o gelo na antártica, aumenta o buraco na camada de ozono, provoca o conflito em Gaza, separa a Ucrânia, descobre e extrai petróleo, esconde ou destrói a “cura”, encontra um novo vírus, provoca a falência no Vaticano (...). A festa, portanto: enquanto faço twerk o mundo cai paulatinamente aos meus pés. A preocupação política descansa na preguiça, é o grito versus o silêncio. A partitura é criada a partir da apropriação de várias referências prontas a habitar o meu corpo, que estão de alguma forma ligadas à terra, como por exemplo o samba ou o funk. G.O.D. é a evocação de algo superior, divino (transe) a partir da relação de um corpo com a terra através de danças referenciais: Goddess of Desire.

Esta peça poderia acabar comigo, mas a sobrevivência acontece com a saída da tampa de esgoto, referindo novamente “Till the world ends”, e que é também uma forma desta performance existir por si, a celebrar a dança.


Sinopse 2 (Fevereiro, 4 de 2015)
A música e respectivo video “Till The world Ends” de Britney Spears inauguram este projecto - G.O.D. - onde é construída uma árvore genealógica como mapa referencial, sendo a noção de ramificação um dos aspectos essenciais. No entanto, este mapa é bastante particular: à medida que evolui, os pontos de partida vão-se diluindo, tornando-se menos óbvios ou concretos para passarem a uma existência quase líquida, como no caso de conceitos como o tempo e a memória. 

Em G.O.D., a construção de uma paisagem sonora é essencial, potenciando algumas imagem, e promovendo a criação de padrões mentais associados a estereótipos que se vão tornando menos óbvios e se transformam continuamente, gerando paisagens inesperadas, globalizadas. Emergem assim possibilidades de mapeamento de forma não cumulativa, mas sempre numa metamorfose constante. Esta é uma peça que propõe uma dança genial em potência, na sua não possibilidade e na sua perfeição, onde ideias sobre o fim e o genial ou o fim e o belo habitam um corpo indefinido pelo género, nas suas vivências, e na sua cronologia experiencial: não há aqui passado ou presente como elementos concretos. 

G.O.D. conclui-se como uma peça sobre a precisão do fim. À paisagem sonora, juntam-se um corpo e um lugar de acção globalizados, com as referências a desterritorializarem-se, complexos no sentido identitário, abstractos, desafiando aparentes simplicidades no espanto da descoberta de existir. Existe neste projecto um conjunto de regras onde emergem zonas de conforto pela desistência, e zonas de desconforto pelo bloqueio relativamente a acções pré-definidas. Entre o conforto e o desconforto, há a evocação, a paixão, o não retorno, o escape. É um ritual que, nos ricochetes entre o concreto e o abstracto, falha. 

G.O.D. dá assim continuidade a um percurso onde a experiência autobiográfica e os elementos autoreferenciais têm estado presentes desde 2006 sendo, no entanto, um momento de quebra, de mudança e de perspectiva nesse percurso. Há neste projecto um corpo que não é o meu. Sendo bastante mais jovem, apesar de escolhido por semelhança, transforma esta peça num exercício sobre a memória, sobre as possibilidades de me olhar através de um outro, e sobre um corpo enquanto espaço aberto a novos questionamentos e paradigmas. Assim, G.O.D. é um mapeamento de territórios, onde a capacidade de aceitar, mudar, perdoar, deixar ir, lutar, querer e não querer estão presentes em ricochetes, e cujo objectivo ou desejo é perdermo-nos por entre possibilidades de colaboração intérprete-criador.


VIDEO PROMOCIONAL |  EXCERTOS
DOCUMENTAÇÃO AQUI

Concepção cénica, coreográfica e musical de Flávio Rodrigues
Interpretação Bruno Cadinha
Documentação Telma João Santos
Imagem promocional Carla Valquaresma
Apoio: "Um lugar para a dança" | EIRA, Balleteatro, Galeria ZDB
Agradecimentos: Nome Próprio

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G.O.D. | The movie | 2015


EN
“Till the World Ends” is the title of a song interpreted by Britney Spears, which is the second single from her seventh studio album, Femme Fatale, released in 2011. The music was written by Kesha, Alexander Kronlund, Dr. Luke and Max Martin, and the promoting video was released on the 6th of April of 2011 under the direction of Ray Kay. The scenes of this video show Spears at a subterranean party with allusions to the apocalypse, and a reference to the 21st of December 2012 which, according to the Mayan Calender, will be the day that the 5125 year cycle ends. 

It is with this curiosity that I start my new project, where a series of ramifications emerge from the idea of the construction of a family tree (false – or very particular), which I called G.O.D. This tree is the symbology found for the creation of a new choreographic and sound score, in which the following are represented: Michael Jackson’s “Thriller”, Andrew Stanton’s “Wall-E”, the Bible, the last coke in the desert, the anaconda, the "Change the world without taking power", hyper consumerism, the so called “gender paintings” of J. H. Fragonard, Andy Warhol and the supermarket, the Hole in the Ozone Layer “featuring” Illuminatis, and the “genius” dance. These are some of the connections that project a place for the creation of a soundscape (remix), which in turn will be the base for a body that moves and metamorphoses.

As in VERSE$, (2014) in G.O.D. there is the construction of a soundscape – made in Homestudio – as a house that the body inhabits, and from which it is possible to map territories. This relationship between sound construction, from which possibilities emerge, and the choreographic score generated, as well as the relationship between a soundtrack as a home – the mother of a body from which it moves away and transforms, have been central to my work. This choreographic score aims to be open and flexible, proposing a body in constant movement that maps and subscribes, and de-territorializes itself.

In this project, for the first time, the body is not my own. The possibilities that allow for the mapping of territories are clearly manipulated, hence the interpreter emerges as a metaphor/projection/narrative of paradoxes, evocations and transformation of desire into continuous dialogue. This is the first solo show where I am not the interpreter, which gives me the opportunity to be an outside viewer which controls and manipulates, in short, to play God (G.O.D.). There is also another “body” of writing, which also generates possibilities that produce another layer of senses and directions throughout the process. This “body” is an outside view that annotates, cuts, recuts, remakes, contextualizes and decontextualizes. It is descriptive, questioning, dusting, de-territorializing, epic; a generator/creator of others, where G.O.D. is the “here and now”, the “all or nothing”, the “epiphany”, the “faint”.

In G.O.D. dance is celebrated as being potentially at an end(The Last Dance), as a party where the apocalypse is the limit. The Dance (in its poetics) melts the ice in Antarctica, increases the Hole in the Ozone Layer, causes the conflict in Gaza, separates Ukraine, finds and extracts oil, hides or destroys the “cure”, finds a new virus, causes the failure in Vatican (…). So, the party: while I twerk the world falls gradually to my feet. The political concern rests in the laziness; it’s the scream versus the silence. The score is created from the appropriation of several references ready to inhabit my body, which is also in some way connected to the ground, like for example samba or funk. G.O.D. is the evocation of something superior, divine (transe) coming from the relationship of the body with the ground through referential dances: The Goddess of Desire. 

This piece has the potential to put an end to me, but the exit through a manhole cover ensures my survival, referring again to “Till the World Ends”, and is also a way for this performance to exist on its own, as a celebration of dance.


Scenic, Choreographic and Musical Conception of Flávio Rodrigues
Interpretation Bruno Cadinha
Documentation Telma João Santos
Support: "Um lugar para a dança" | EIRA, Balleteatro, Galeria ZDB
Thanks: Nome Próprio

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G.O.D. | The movie | 2015