POST POP por Rogério Nuno Costa

Ou a obra de arte na era da sua reprodutibilidade estética


Alguns apontamentos avulso, a chegar e a partir de uma conversa-no-sofá entre Flávio Rodrigues e Rogério Nuno Costa, a 8 de Abril de 2013, no Porto, aos quais se foram juntando, por acumulação, e nos meses seguintes, outras experiências: pijama parties, sessões fotográficas, jantares gourmet, visitas guiadas a bares nocturnos muito mal frequentados, festas hipster, tardes na praia, tertúlias de chat, performances caseiras, coreografias ao domicílio e inúmeros sleepovers para cigarros, “gossip” e visionamento de clássicos do Youtube. Nove meses a escrever um texto. Não um guia para a interpretação de um espectáculo, mas um desvio hermenêutico contra essa mesma interpretação. Também não uma entrevista, mas a reescrita ficcional de uma transcrição (ora fonética, ora semântica) de uma troca de impressões (e de expressões) entre dois amigos. Nunca um ensaio, antes uma obra que começa e acaba no momento da sua enunciação. Podia ser um texto escrito a quatro mãos; é só a emanação de duas cabeças a pensar em vontades e dois corpos a perspectivar concretizações. Não há forma, portanto, só conceito. O cansaço obriga a uma anotação fugaz, ao mesmo tempo falada e teclada, dois planos sobrepostos que quase coincidem — o delay, imperceptível, faz lembrar a tecnologia que permite à MTV ocultar os fucks, os shits e os son-of-a-bitches em directo. Os efeitos sonoros de um motim chamado “Vida” podem causar um motim verdadeiro chamado “Efémero”. Parece-me ser essa a parábola certa, levianamente roubada a Burroughs, para iniciar a construção de um olhar sobre NIL-CITY — a realidade é uma ilusão auditiva, move-se a contrapasso e chega-nos sempre com um atraso de uma fracção de segundo, o bastante para que se corrija retroactivamente o que correu mal, ou se reponha o que ficou por dizer. NIL CITY começa por ser isso: a criação de um sítio com corrector automático acoplado aos corpos de quatro bailarinos, ou uma placa de ressonância magnética instalada no chão de um palco, que faz ressoar o eco dos ecos dos passos que se dão, e ainda um eco maior, o de Flávio Big Brother Rodrigues, a perscrutar tudo lá de cima (ou então lá de baixo, consoante o ângulo da paralaxe). Qual dos três o mais verdadeiro? Seria preciso impor um qualquer Ministério da Verdade orwelliano para responder a tal questão. Desaceleremos… Este texto poderia ser uma introdução não ao espectáculo NIL-CITY, mas ao seu mais imediato referente: o grau zero de uma cidade por nascer. Ou seja, este texto é o panfleto promocional, o mapa desdobrável, a revista da especialidade, o atlas geográfico ou o guia turístico (papel versus pessoa) de NIL-CITY, uma cidade abandonada, e ao mesmo tempo ocupada por uma catástrofe feita de pequenos abandonos, que Flávio Rodrigues nos convida a visitar. Ou seja, neste espectáculo, o espectador será um visitante. Num segundo plano, este texto é também uma tentativa de tornar verdade (por oposição a “real”) o pequeno texto sinóptico que escrevi, imaginando-me na pele e no coração do criador, para promover NIL-CITY nas semanas que antecederam a sua estreia. Assumi-lo-emos, aqui, como a primeira fala da personagem “Flávio” (didascália: o autor falando da sua obra). A personagem “Rogério” espera pela sua vez. Música (Nicki Minaj, “Pound The Alarm”), acção:

FLÁVIO — NIL-CITY podia começar por impor a seguinte ficção: uma equipa de investigadores do Departamento de Física de uma qualquer Universidade ocidental conseguiu provar que não há espaço para tudo, e muito menos para todos. E a seguir rebater com a seguinte realidade: os idiotas têm sempre razão! O resultado desta equação-performance é uma reflexão sobre o Fim enquanto resultado mais ou menos directo de uma saturação, mas invertendo os eixos: a matemática de NIL-CITY não se alicerça em espiritualidades (o nada, o vazio, o vácuo), mas antes numa materialidade unívoca — “Nil” é igual a ZERO. Trata-se, portanto, de uma performance est(ética)mente inaugural, partindo dos estilhaços deixados a solo pela explosão meta-referencial de “Rara: um discurso ingénuo e utópico”, a caminho de um não-lugar preenchido em excesso por um colectivo de intérpretes que será, ao mesmo tempo, hóspede e hospedeiro, matéria (meio) e material (fim): um Big Bang ao contrário, ou então um arrefecimento global. Através desta implosão bi/polar, NIL-CITY desenhará a maquete de um País a-referencial e inócuo, onde o tempo toma consciência da sua condição convencional, parando; e onde todas as duplicidades se transformam em triplicidades. É a alternate version do universo para onde todos queremos/vamos emigrar: um lugar em suspenso, sem antónimos, sem fricção, sem interrogações nem interrogatórios, sem política; onde o Luxo não é um luxo, onde a Arte (essa sub-categoria do Design) é um mero fetiche decorativo, onde o Ouro é o novo preto. Um lugar sem limites, logo, profundamente limitado. NIL-CITY convida-nos a uma paragem higiénica, não para pensar, não para agir, mas para condenar a nossa existência a uma neutralidade total e absoluta. NIL-CITY não é um milagre; é uma guerra fria.

ROGÉRIO — Curiosamente, é em “terrorismo” que penso quando assisto ao ensaio da tua peça. Não no seu sentido político mais imediato, mas através da sua possível abstracção: a radicalização de um gesto que se quer ao mesmo tempo destruidor e simbólico. Obrigo-me a resistir à tentação de ir procurar uma citação orelhuda ao livro “Filosofia em tempo de terror” (comentários dos filósofos Derrida e Habermas, poucas semanas após a queda das Torres Gémeas). Sintetizo assim: NIL-CITY é mais um número que um nome. 9-11, por exemplo.

FLÁVIO — Conceptualmente, NIL-CITY é um ícone, sim. Mas formalmente o que os intérpretes fazem é terrorismo ao contrário. Chegam a um lugar e o lugar não tem nada. Ou melhor, o lugar tem nada. E é sobre essa matéria que urge trabalhar. É na verdade a única matéria que lhes resta. Destroem esse nada, construindo. Não há nada para derrubar.

ROGÉRIO — Então NIL-CITY, o título, é um false friend. Nada tem a ver com nihilismo. É menos a negação de uma moral, e mais a afirmação de uma ética. Para começar do princípio, temos de começar tudo “de novo”. E isto nada tem de existencial. É pragmático e é contextual: existe um palco, negro, que precisa de ser preenchido. Não é uma utopia, mas também não é uma distopia. O espaço proposto por NIL-CITY é um espaço “protópico”: exactamente igual a todos os outros, apenas com uma ligeira diferença infinitesimal de foco.

FLÁVIO — Em NIL-CITY não falta nada. Por isso é que o acto de o preencher será sempre excessivo e super-abundante. Enquanto coreógrafo, interessa-me criar partituras de acção ultra-simplistas, quase requintadas, mas abusivamente impregnadas de referências exteriores ao espaço de acção.

ROGÉRIO — Vejo em NIL-CITY o momento anterior ao momento em que essas referências implodem. Como se a peça estivesse em suspenso, à espera da tal catástrofe do abandono, que nunca chega.

FLÁVIO — Mas NIL-CITY também é o momento posterior a isso que acabaste de dizer. Também é sobre o que fica depois da derrocada. Vou-te ler uma coisa que encontrei na rede social Last.fm. É a descrição de um “novo” género musical. Diz assim: “The term ‘Post-Pop’ arises from the assumption that pop music has long come to its end. It imploded due to the metamorphosis of its auto-regenerative attitude of negation into ironic depression. The artists labeled as ‘Post-Pop’ ironically play with the necessarily failing attempt to develop a new aesthetic after pop.”

ROGÉRIO — Ou seja, a descrição de tudo aquilo que se faz… Fazemos!

FLÁVIO — ‘Post-Pop’ seria o único género musical possível?

ROGÉRIO — Musical, literário, coreográfico, cinematográfico, teatral, filosófico, gastronómico, psicossociológico, comercial, industrial, criativo, e até artístico!

FLÁVIO — ‘Post-Pop’ é 2013?

ROGÉRIO — ‘Post-Pop’ é 2013, mas também é todos os anos antes e todos os anos depois de 2013. Penso que todas as tuas peças são sobre essa elasticidade temporal (e também espacial) que faz com que cada novo empreendimento convide o Mundo™ todo para dentro do palco. Como? Erradicando a História e substituindo-a pela história, a tua. O que fazes até pode ser “auto”, e “bio” e “gráfico”, mas não creio que seja “autobiográfico”. As peças não são necessariamente sobre ti, mas sobre o espaço que tu ocupas nesse tempo que é elástico. E depois as peças relacionam-se umas com as outras como se de constantes spin-offs se tratassem. É talvez aqui que reside a conceptualidade inequívoca do teu trabalho. Repara que para mim “conceptual” é um substantivo, não é um adjectivo. És dos poucos artistas que conheço que não confunde conceptualidade com Arte Conceptual e, concomitantemente, não transforma o conceptual naquilo que ele não é: um estilo.

[Pausa: Flávio distrai-se e começa a deambular em torno de questões que se afastam do tema inicial. Fala de improvisações e qualidades de movimento (eu rio-me), depois salta para as demonstrações (porno)gráficas de luxo nos videoclips de R&B americanos, para os movimentos sócio-políticos de resistência e/ou de desistência, para a ideia de Paraíso (não me lembro se proferiu a palavra com letra maiúscula ou não), para os situacionistas (os artistas e os outros), para a condição do artista em Portugal, para as relações de Poder, para a estética de vários movimentos contra-culturais de países do Terceiro Mundo, para a vontade de se deixar ficar pelos pressupostos iniciais e pelos pontos de partida, procurando aí o ADN do seu discurso enquanto artista, e depois para uma série de referências cinematográficas das quais só recordo o Bergman, para daí começar a falar em dentes de ouro, colares de ouro, anéis de ouro, folhas de ouro comestíveis… Interrompo-o, para lhe mostrar o videoclip “Rich Bitch” dos sul-africanos Die Antwoord.]

FLÁVIO — Uau! Vou roubar essas ideias todas!

ROGÉRIO — Quanto muito, vais pedi-las emprestadas. Não entendo como é que se acha possível “roubar ideias”! A menos que se faça de conta que não existe um holograma chamado World Wide Web, esse doppelgänger do cérebro humano que, como tal, só funciona em modo copy/paste. Na verdade, o Homem funciona em modo copy/paste muito antes de ter surgido a World Wide Web. O Homem funciona em modo copy/paste desde que começou a pensar — copy/paste, logo existo.

FLÁVIO — Mas eu não queria que a minha peça fosse sobre isso.

ROGÉRIO — Não é. A tua peça, como todas as boas peças, é sobre ela própria. É sobre a possibilidade de ela acontecer. É sobre o momento em que a colocas à frente dos olhos dos espectadores. Se a tua peça fosse sobre outra coisa qualquer, não seria uma obra de arte, seria uma composição sobre um tema, um serviço educativo, uma festa temática, um objecto de design. Essas coisas até podem parecer-se com “arte”, mas não são Arte.

FLÁVIO — Mas NIL-CITY está cheio de outras coisas lá dentro.

ROGÉRIO — Sim. Outros símbolos, outros ícones e outros sentidos. Mas não passam de presenças. Isto é, estão presentes, apenas. São como os concorrentes da Casa dos Segredos quando vão às discotecas para… estar nas discotecas! Não valem instrinsecamente nada, mas servem um propósito unívoco: tornar visível (isto é, presente) a banalização da própria banalização inerente ao Mundo de merda em que vivemos. A tua peça reflecte essa dupla banalização, esse Nada. Ao contrário do vácuo e do vazio, no nada não existe sequer o espaço, isto é, não há coisa alguma, nem sequer um lugar vazio, para nele caber alguma coisa. Sendo o espaço o conjunto dos lugares, isto é, das possibilidades de localização, a sua inexistência implica a impossibilidade de poder conter qualquer coisa. Isto é, não se pode estar no nada.

FLÁVIO — Mas pode-se estar em NIL-CITY. Ao transitar entre esses três planos, NIL-CITY transforma um não-lugar num lugar-onde.

ROGÉRIO — Sim. Um lugar onde é possível observar, em suspenso, a Pop a comer-se a si própria, hecatombe vaticinada pelos 2 Many DJs no ano 2000 e que desde então se tem agravado de ano para ano. O devir da Arte chama-se MASHUP. Ponto de não retorno!

FLÁVIO — A Arte está dentro da Pop?

ROGÉRIO — Claro. A Arte e todas as restantes disciplinas criativas, do Espiritismo ao Desporto, passando pela Astrofísica e pela Decoração de Interiores. É tudo feito do mesmo e faz tudo parte do mesmo. Hoje cita-se Schrödinger como dantes se citavam ensinamentos budistas ou aforismos do Paulo Coelho. A Física Quântica é a mais sublime forma de transcendência para as massas.

FLÁVIO — Vou-te citar! Escreveste há dias no moral do teu Facebook: “O género ‘espectáculo infantil para adultos’ e o seu primo carnal ‘espectáculo adulto para crianças’ tem sido aplicado a todas as áreas da cultura pop, dos livros de auto-ajuda do Slavoj Žižek aos desfiles de moda da Marina Abramovic, passando pelas festas de aniversário da Yoko Ono, onde é possível ver a Lady Gaga a beber flûtes de champagne com o Jeff Koons.”

ROGÉRIO — Sim, pelo andar da carruagem, no próximo ano vamos poder comprar tofu de porco e seitan de galinha. E também fast-food com sabor a fast-food! A máxima assumpção do mundo pós-capitalista e pós-ideológico em que vivemos é justamente a transformação esquizóide de todas as artes e de todos os ofícios em “indústrias criativas”... 

FLÁVIO (interrompendo Rogério) — O que é para ti Arte, Rogério?

ROGÉRIO (um bocadinho lixado com Flávio) — Essa pergunta já foi respondida por Marcel Duchamp em 1917. A resposta que ele deu é científica (vem do Latim scientia e significa “conhecimento”). Tal como a Terra, desde Copérnico, continua a girar à volta do Sol, também a Arte, desde Duchamp, continua a ser um nome, apenas. Só a Arte é “uma arte”. E a única estetização possível é a estetização da própria Estética. 

FLÁVIO — Cortar o mal pelo rizoma?

ROGÉRIO — Sim, porque a História está sempre a esquecer-se de tomar a medicação para o Alzheimer... E de vez em quando lá voltam a estar na moda aqueles artistas completamente incapazes de ler um livro, mas com “muita sensibilidade e inteligência emocional” (sic).

FLÁVIO — Eu pessoalmente sinto que ando a ler os livros errados na altura certa.

ROGÉRIO — Mensagem subliminar ao leitor: nos dias que correm, less é mesmo só less…

FLÁVIO — Vou deixar também uma mensagem subliminar aos espectadores de NIL-CITY: esta peça não é sobre falhas, nem sobre erros, nem sobre a importância do processo, nem sobre a manutenção de estados de fragilidade, nem sobre nenhum desses fetiches mal resolvidos com os anos 90 que se vêem por aí plasmados em sinopses que começam com entradas da Porto Editora. Eu inspiro-me nesse momento proto-inaugural em que Christina Aguilera renasce das cinzas, aparecendo de novo magra, maravilhosa, perfeita e invencível ao lado de Pitbull. Não me interessa a decadência, nem o insucesso, nem o esquecimento. Nem tão pouco a sua estetização através do filtro do glamour. Interessa-me o Poder. E NIL-CITY é uma ode ao Poder, e à Glória, e ao Ouro.

ROGÉRIO — Vou-te ler um excerto de um texto que escrevi para o meu último espectáculo. Poderia ter sido escrito para o teu: “(...) não uma morte regenerativa, mas um fim, um eclipse, puff! Ou bem que desaparece mesmo tudo, ou não vale a pena darmo-nos ao trabalho de filmar mais um Fim do Mundo épico nos estúdios de Hollywood... No Novo Mundo megalofísico, todos seremos vírus. Sem tangibilidade, sem existência corpórea, só éter. Meta-organismos salubres e inodoros, passivos na sua atitude estritamente contemplativa, mas utilitários na sua condição una de observadores infinitos. Ver. Organismos que vêem. Acção singular mas pluri-direccionada. Seremos entidades uni-celulares munidas de um só olho que vê, simultaneamente, 27 dimensões quânticas sobrepostas — passado, presente e futuro condensados num só prisma arquitectural. Não seremos estruturas, mas sistemas. Pares de olhos com braços, inertes, e estendidos em tapete ao longo de toda a superfície sideral. Uma só cor. Um só destino: sermos espectadores de nós próprios. Uma nuvem imensa de sub-produtos culturais do Velho Mundo pairará sobre nós, chovendo ininterruptamente toda a ordem de partículas de sentido estético, com o único propósito de nos entreter. Pop!, pop!, pop!... (ou então: twerk!, twerk!, twerk!...) More is more! Não seremos todos artistas, seremos todos designers. A nossa forma, infinita manta de retalhos ciberespacial, seguirá a nossa função — meta-meta-meta-espectadores (...). Ao Homo Ludens só lhe resta e-xistir.”

FLÁVIO (bebendo Coca-Cola) — Por exemplo, ando a ler “A Revolta das Massas”, do Ortega y Gasset.

ROGÉRIO — Desde que não me digas que primeiro fazes e depois pensas, podes ler o que te apetecer.

FLÁVIO — NIL-CITY é um bailado, Rogério. Um bailado (infinitamente) moderno. Feito de corpos expectantes, que observam. Passa-se em muitas latitudes, por isso o clima muda mais ou menos de 5 em 5 minutos. É uma viagem trans-dimensional. Quatro argonautas conversam sobre a possibilidade de não dizerem nada, sobre a possibilidade de apenas pararem para escutar e depois olhar. Ou ao contrário. NIL-CITY é um comboio que vai passar, portanto. Também é uma manta de retalhos bi-cromática: preta e dourada. Um videoclip. Uma cerimónia de entrega de prémios da MTV (ou outro canal qualquer, desde que americano). É a língua da Miley Cyrus. É um livro aberto na página 2013. Vou repetir: NIL-CITY é um bailado (infnitamente) moderno. E como tal tem lá dentro todos os clichés mais ou menos ridicularizáveis da dança. Ou da Dança. E todos os estereótipos ligados à figura do bailarino. Dentro do comboio que vai passar está a Britney Spears, aborrecidíssima. E na página 2013 do livro está um texto em Inglês com o título “Never skip the intro, stay there!”. E na entrega de prémios da MTV, a Miley Cyrus aparece para entregar o galardão principal ao Harmony Korine, que entra em palco arrastando o cadáver da Marina Abramovic. E o videoclip não é bem um videoclip, porque não tem música. O palco onde isto tudo acontece é simétrico e sincrónico. Tudo ocorre ao mesmo tempo, durante, enquanto e entretanto. Um sistema de vídeo-vigilância apaga todos os palavrões. Está tudo calado, não porque não haja nada para dizer, simplesmente porque o silêncio é sexy. NIL-CITY é um corpo nutrindo um fetiche sexual por si próprio — autofagia, silêncio, calma, feitiçaria. Fala-se de valor, de fim, de escapes, de zonas paradisíacas, de favelas camufladas, de turismo, mas acima de tudo de amor: por um Deus ao mesmo tempo high tech e low tech — natural, perfeito, valioso e anárquico. E porque só existem duas maneiras de viver — 1) como se nada fosse um milagre, 2) como se tudo fosse um milagre —, caberá ao espectador decidir como entrar em NIL-CITY.

WALTER BENJAMIN — Aquilo que vos une, enquanto seres pensantes que de vez em quando criam, é essa necessidade quase mórbida de se transformarem, permanente e incessantemente, em clichés de vós próprios. O último passo do Capitalismo não é o apagamento da face humana, mas antes a transformação do Homem no objecto do seu próprio desaparecimento. Só vos resta consumirem-se a vós próprios. Sem linguagem, só língua. Linha recta. Sempiterno nec otium. Talvez seja isto a obra de arte na era da sua reprodutibilidade estética.

Rogério Nuno Costa
Dezembro 2013

NIL-CITY de Flávio Rodrigues
para Ballet Contemporâneo do Norte