Cuidados Intensivos



"Cuidados Intensivos"
Programa de encontros, performances e exposições
Concepção e coordenação: Joclécio Azevedo
Março a Julho 2013, Vila do Conde

"Cuidados Intensivos" consiste num programa de acções e encontros mensais com artistas, que acontecem dentro de exposições temporárias em Vila do Conde. As exposições combinam diversos tipos de vestígios de produções artísticas, tais como partituras, objectos utilizados em performances e edições à volta das artes performativas ou de processos de criação.

As exposições do Cuidados Intensivos (programa de encontros, performances e exposições) contam com a participação de: Andreas Dyrdal, António Júlio, Flávio Rodrigues, Joana Providência, Miguel Pipa, Né Barros, Paulo Mendes, Pedro Augusto/Ghuna X, Rogério Nuno Costa, Susana Chiocca, Teresa Prima, Vera Santos e Victor Hugo Pontes

Entrada livre em todos os eventos
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Exposição “Biblioteca Flutuante” 23 Março a 20 Abril
Encontros:
Paulo Mendes e Pedro Augusto/Ghuna X - 23 Março, 18:00
Flávio Rodrigues e Miguel Pipa - 30 Março, 18:00

Loja na Rua do Lidador nº 91, Vila do Conde
Horário: segundas-feiras 16:30-19:30
Marcação de visitas guiadas para segundas e sextas-feiras através do mail info@circularfestival.com

Nesta etapa o espaço de encontro é preenchido por livros utilizados em processos criativos, livros sobre processos criativos, livros sobre artes performativas, livros usados, sublinhados, suspensos, interconectados e disponíveis para serem manuseados pelos visitantes. Os livros fazem parte do nosso quotidiano e do nosso imaginário. Nesta floresta de livros suspensos reflectimos sobre o livro enquanto depósito de conhecimento e experiência, indagamos sobre o papel do livro como extensão da memória, sobre as alterações que nos têm trazido a existência de novos suportes digitais, perguntamo-nos sobre os impactos da tecnologia nos hábitos de leitura e de escrita.
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Exposição “Depósito de Artefactos Performativos" 27 Abril a 25 Maio
Encontros:
António Júlio e Susana Chiocca - 27 Abril, 18:00
Rogério Nuno Costa e Victor Hugo Pontes - 25 Maio, 18:00
Centro de Memória, Vila do Conde
Horário: ter a dom 10:00-18:00

Nesta etapa o espaço é preenchido por objectos diversificados, vestígios de produções coreográficas e performativas. Uma espécie de local arqueológico caótico, onde são desenterrados objectos, mobiliário, pequenos adereços, artefactos construídos para serem manipulados, objectos que servem para ajudar a pensar ou com os quais foram desenvolvidos diferentes tipos de relações afectivas.
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Exposição “Partituras, Notações e Anotações” 1 Junho a 13 Julho
Encontros:
Né Barros e Teresa Prima - 1 Junho, 18:00
Andreas Dyrdal, Joana Providência e Vera Santos - 13 Julho, 18:00
Centro de Memória, Vila do Conde
Horário: ter a dom 10:00-18:00

Nesta etapa o espaço é preenchido com reproduções de partituras coreográficas e performativas, notas de cadernos de criação, esquemas de improvisação, listas de instruções. Alguns criadores possuem formas sofisticadas de registo ou de notação, outros são completamente caóticos, outros inventam graficamente formas de preservar ou de transmitir ideias. Às vezes a partitura é por si só um objecto.
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Observadores: Cristina Grande e Helder Dias
Apoio técnico às exposições: Susana Medina


Programa desenvolvido no âmbito do projecto Artista Residente promovido pela Circular Associação Cultural
© DR
©Margarida Ribeiro



Notas: Cuidados intensivos (por Flávio Rodrigues), 2013

PT
- Desenvolvo os meus próprios projectos, maioritariamente a solo, centrados quase sempre, num trabalho sobre e a partir do corpo, em projectos de natureza formalmente transdisciplinar e conceptualmente (auto)referencial e (auto)biográfica.

A autobiografia surge como forma de dar início a um processo de investigação: uma acção ou memória (pertencentes à minha vivência pessoal). Por exemplo, no solo "Tarde demais Mariana (2006)" a memória da minha primeira casa (arquitectura) é a base para a construção de uma escrita ou partitura. O corpo ocupa o espaço que a memória inventou. Também em "Still golden" a casa surge como ponto de partida: uma revisitação. 

A ausência de movimento (refiro-me à coreografia formalmente escrita) nas minhas peças não é uma exigência ou um foco que sigo: naturalmente tendo a levar para estúdios outras formas de abordar a presença do corpo: fascina-me a fotografia (pela captação do momento e a possibilidade de permanência), a criação de vídeo (pela posterior possibilidade de editar e criar visões paralelas, alterar o tempo de acção), a criação de paisagens sonoras e a imagem como potência.

- Para "Rara" o meu último solo, interessou-me a captação de sons como forma de criar uma paisagem. E é nesta paisagem que o corpo habita: está para além daquilo que se pode ver, há um foco primordial naquilo que se ouve. 

Esta peça surge após uma viagem ao Brasil: uma relação de amor e ódio: amo o Brasil / odeio o Brasil | quero ir embora / quero voltar. 

- Em "Rara" falo de favelas douradas, do turismo, do puto manhoso / rebelde, do paraíso que tapa o lixo, da ambiguidade de terrenos e da emigração.

O género, a sexualidade, o coração (sentido figurativo para amor e o seu oposto), a família, a casa (lugar): a utopia como destino.

- Não é preto nem branco, à um lugar que se perde na definição. E é aí que encontro o queer (estranho, inexplicável, subjectivo, esquisito, desconhecido, indefinido, disforme (…). Também o deserto, ermo e vazio. A poesia.

- Gosto de me perder nos processos criativos: Contudo, por vezes pela necessidade de voltar a traz ou começar tudo de novo, o ponto de onde parto, gosto que seja um terreno palpável e seguro.

- Gosto da sensação de estar perdido, de perder o controlo sobre o que me move para a criação. Por vezes termino uma peça sem saber exactamente do que estou a falar (refiro-me às mutações e sobreposições que a peça adquire). Mas isto não me assusta. 


Notes: Intensive Care (2013)

ENG
– I set up my own projects, mostly solos, by almost invariably focusing them and starting from work on the body . These projects have a formal cross-disciplinary nature and they are conceptually (self‑)referential and (auto)biographic.

– Autobiography emerges as a way to begin an investigation process: An action or memory (from my own personal experience). For example, in the solo Tarde demais Mariana (2006) [Too late Mariana] the memory of my first house (architecture) is the foundation for the construction of a style of writing or score. The body takes up the space that memory invented. In Still golden again the house arises as a starting point: A revisitation.

– The absence of movement in my plays (I mean the formal written choreography) isn’t either a demand nor the search for a focal point – naturally I tend to take into studio other ways of tackling with the presence of the body: I’m fascinated by photography (because it captures the moment and it allows some kind of permanence), by video creation (because of the range of possibilities it allows while editing, in creating parallel visions, or in changing the action time), by the creation of soundscapes and by the image as power.

– In Rara [Rare], my last solo, I was interested in capturing sounds as a form of creating a landscape. And it is in this landscape that the body lives: It is beyond what the eyes can see, there is a central focus on what we listen to.

– This piece arose after a trip to Brazil: a love‑hate relationship – I love Brazil / I hate Brazil – I want to leave / I want to go back there.

– In Rara I deal with golden favelas, tourism, the sly / rebellious kid, the paradise covering the trash, the ambiguity in different fields and emigration.

– Gender, sexuality, the heart (metaphorically meaning love and its opposite), family, home (place): having utopia as destiny.

– It is neither black nor white, there is a place lost in the definition. And that is where I find the concept of queer – strange, unexplainable, weird, unknown, undefined, shapeless (…). And the desert, forsaken and empty. Poetry.

– I like to get lost in creative processes: in spite of this, sometimes, I have the need to go back or start everything all over again, so I prefer the starting point to be safe and solid ground.

– I like the feeling of being lost, of losing control over what compels me to creation. Every now and then I finish a piece without really knowing what I’m talking about (I mean the mutations the piece undergoes and the multiple layers it gets in the end). But that doesn’t scare me. 


Flávio Rodrigues

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