Viagem pela obra de Flávio Rodrigues, por Renata Portas

Flávio Rodrigues
Viagem pela obra

K – 7. Fitas virgens – Grave por cima (escrito a caneta de filtro verde néon, poderia ser o subtítulo do pensamento da criação performática – dança, não – dança, pós – conceptual, pós dança-teatro, pós - falência das utopias que atravessaram o séc. XX, esse que abrigou todos os ismos que sonhamos; e que nos falharam (mas a isso já lá iremos, aguarde, caro leitor.).

Flávio Rodrigues nasceu em 1984, altura em que ainda víamos e ouvíamos rádios aos ombros, apêndices corporais, em NY e São Paulo (um pouco em todo o lado). Ouvíamos música em walkmans e esperávamos horas para gravar a música favorita na rádio (uma operação delicada de ter os botões rec/play e stop ao mesmo tempo, preparados, para libertar no instante exacto o stop – há quem prefira o pause, como faz Flávio Rodrigues no seu trabalho, mas calma, também a isso lá iremos).
REC.

Gravar. Memórias (reais, adulteradas). Imagens. Sensações. Documentar.
Imprimir tudo (na alma e na web). Colocar os phones no ouvido (do walkman) e deixar de ouvir o mundo. Interpelar o mundo através do Eu, ao contrário da geração precedente que interroga o mundo, para se ausentar do eu (exercício de contracção, invés de expansão).
 Desde o primeiro trabalho Tarde Demais, Mariana que Flávio Rodrigues vem construindo, em gesto de esquisso, de esboço, ficções autobiográficas, em diálogo com o público.
Tarde Demais Mariana, buscava a infância, reminiscência pueril de barquinhos de papel, no corpo do Homem (e o que é isto de ser Homem? De que falamos quando falamos de corpo? O que é o género? São interrogações permanentes nos espectáculos de Flávio Rodrigues).
Gravar, documentar quase em tempo real na época dos youtubes/redes sociais / residências artísticas como Eldorado de qualquer artista emergente é palavra de ordem para os filhos de 80.
Mas Flávio Rodrigues, que grava em todos estes media (a geração de 80 persegue e inclui a comunicação, é mais vertiginosa na sua apreensão do mundo, por reacção a uma ideia de selecção do conhecimento, que a precedeu – as bibliotecas como metáfora do Mundo, do mundo que importa conhecer, e os museus que escolhem a arte que resiste ao tempo – subsistem, porque somos de tempos diferentes, ainda que habitemos o hoje – mas já albergam filmes da tua vida em um minuto, ao lado de Lacan, e do Deus de Pascal.); usa a dança como lugar de eterno retorno, como uma cassete, favorita, que é preciso puxar atrás, uma e outra vez para ouvir melhor.

PLAY. PLAY. PLAY.

Ainda nos idos dos anos 80, uma empresa de sapatilhas, hoje multimilionária, propagava o slogan Just Do It. Depois da revolução punk que pregava o fazer, no matter what, tocar música sem saber como fazê-lo apenas por necessidade, o lema agora era ainda mais conciso, Faz. *
O que quiseres. (sem necessidade de validação perante o mundo, como apesar de tudo, ainda o faz o punk, dirigindo uma ira adolescente contra o sonho hippie – geração que virá a tornar-se nos criadores de walkmans, slogans, e aldeias globais, longe das tendas de paz e amor, verdadeiros tubarões de Wall Street – e contaminar-nos a todos com pregões, jargões, e siglas – para lá das calças, da comida, do gosto, da música (uma Revolução Cultural mais ambiciosa á escala do que a levada a cabo por Mao Tsé-Tsung que sonhou igualar-nos a todos: falhou? Sim, já o tínhamos dito, falharam-nos todos os ismos.)
Desde 2006, Flávio segue fazendo.

Play é sempre o início de qualquer coisa: da cassete, do filme, da gravação.
É também designação para peça de teatro e como lembra, Peter  Brook a play is also to play; o teatro é também o lugar do lúdico a interpelar a seriedade do mundo.
No trabalho de Flávio Rodrigues, encontramos as duas noções presentes imbricadas.

REWIND / FW

Os trabalhos que seguiram Tarde Demais, Mariana; voltam sempre ao princípio: Mariana (que poderia ser um nickname, nome dos filhos de 80 para os alter-egos, agora denominados avatares - de Flávio Rodrigues, homem que se transmuta ora em corpo andrógino / corpo assexuado – mas altamente erotizado, ora em corpo feminino, como na obra Charlotte O´Day).  Cada passo em frente (forward) é um pensamento sobre o passo anterior (sobre Mariana).
E como no nosso quotidiano andar, cada passo tem de ser imediatamente sucedido por outro, para evitar a queda. Para continuar o caminho (que não se sabe o final).
Por vezes é possível driblar esta natureza humana e voar (ou pelo menos suspender-se do chão, durante segundos ou minutos). Mas o próximo passo virá, é certo.

Voltemos ao walkman: é possível fazer forward (mas o som é difuso, estranho, sujo, apenas reconhecemos lampejos e a cassete, material pouco nobre comparado ás “míticas”, tecnologias de mp 4 (ainda a nossa língua se habituava a dizer mp3, já surgia o passo seguinte, o mp4), mas para os filhos de 80, herdeiros do CD, do DVD e do discman é possível acelerar um pouco mais: fastforward.
Nada é rápido demais. O mundo é uma celeridade de consumo (e a arte, gostemos ou não, ou pelo menos, alguma dela abraça essa voragem).
Wharlol tinha razão.

UNTIL THE END / STOP OR EJECT?

Em 2010, com o trabalho Until the End, (até ao fim – do amor, da palavra, da renúncia, do silêncio, da dúvida); Flávio Rodrigues encerra uma busca iniciada em 2006 com a primeira performance (no seu site podemos ler Tarde Demais Mariana 2006-2010, designação sobre a qual ele abriga todos os espectáculos deste período).

O fim (aparente). As respostas (aparentes- aqui salvem-nos os gregos, os clássicos, tudo fora da caverna é sombra e aparência, perpétua).

 Nos idos 80, chegado ao fim, os rádios cuspiam as cassetes (eject).

E recomeçávamos. De preferência, com fita-cola e a mesma cassete.

PAUSE. PAUSE. PAUSE. START.

Start Again – Nova criação de Flávio Rodrigues ( 2011).

Tradução livre, do slogan da Nike.


Renata Portas
Encenadora e actriz (2010)