Inverno de 2011



PT 
Comecei a criar em 2006 e, do conjunto do meu trabalho, a abordagem autobiográfica tem sido o denominador comum: o material que levo para estúdio surge essencialmente de questões relacionadas com a minha memória e identidade. À exploração performativa tenho aliado outros meios de expressão, como o vídeo a fotografia, que fazem com que a dança deixe de ser particularmente importante, ou presente. O frequente uso de objectos, significantes para mim, faz também com que o resultado dos meus trabalhos se aproxime mais da instalação performativa. Em 2010, em jeito de balanço, criei o espectáculo “Tarde de Mais Mariana 2006-2010”, que consistiu na recriação de todo o material que trabalhei durante esses cinco anos. O encerrar de um ciclo? A minha mais recente performance, “Inverno de 2011”, surge como uma tentativa de romper com a tendência anterior de colocar a dança num segundo plano. Interessava-me a ideia de desenvolver um "objecto performativo”, onde o meu corpo (dança) fosse a principal matéria. Nas primeiras sessões de trabalho, tive como motivação a frase da bailarina e coreógrafa Martha Graham, "The body says what words can not". A minha intenção era testar esta afirmação de forma a descobrir pistas para posteriormente desenvolver o meu trabalho. No decorrer das improvisações percebi que tentava constantemente controlar algo que me parecia incontrolável, o que me estava a suscitar inúmeras questões e entraves. Após um período de pausa, decidi de novo enfrentar a afirmação de Martha Graham, acabando por torná-la no ponto fulcral da peça: iria trabalhar sobre um território onde a poética da dança se tornasse a única solução, adquirindo o corpo a possibilidade de dizer algo que a palavra não pudesse dizer. A peça começou então a compor-se. A partir da experimentação e da exploração de movimentos, do registo, da repetição e do acaso começa a surgir uma narrativa. Tornou-se claro para mim que esta teria que reflectir as memórias que guardo sobre as minhas primeiras experiências com a dança, precisamente! Nesta performance, para além de autor sou narrador e sujeito. Selecciono, interpreto e arquivo dados da minha memória. Refiro-me essencialmente às motivações e ambições de quando, aos doze anos, iniciei a minha formação em ballet. “Inverno de 2011” regista um tempo, uma etapa: o repensar ou um reinventar da minha relação com a dança. 


EN 
I began creating in 2006 and in the whole of my work, the autobiographical approach has been the common denominator: the material I bring into the studio springs essencially from issues related to my memory and identity. I have combined the exploitation in performance with other means of expression, such as video and photography, making the dance no longer particularly important, or present. In view of the frequent use of objects that are significant to me, the result of my work comes closer to performative installation.
In 2010, as a sort of balance, I created the show "Tarde Demais Mariana 2006-2010", which consisted in recreating all the material I worked with during those five years. The end of a cycle? My most recent performance, "Inverno de 2011", appears as an attempt to break the previous trend of putting dance in the background. I was interested in the idea of developing a "performative object", where my body (dance) would be the main issue. In the first working sessions, I was motivated by a quote of the dancer and choreographer Martha Graham: "The body says what words can not". My intention was to test this statement in order to find clues for further development of my work. During improvisations I realized that I was constantly trying to control something that seemed uncontrollable to me, and therefore raised many issues and barriers. After a pause, I decided to confront the affirmation of Martha Graham again, eventually making it the central part of the piece: I would work on a territory where the poetics of dance would become the only solution, and the body would get the chance to say what words could not. The piece began to take shape. From the experimentation and exploration of movement, record, repetition and random, a narrative begins to emerge. It became clear to me that it would have to reflect precisely the memories I keep of my first experiences with dance! In this performance, as well as the author, I am the narrator and the subject. I select, interpret and archive data from my memory. I refer essentially to the motivations and ambitions I had when I began my training in ballet at twelve years old. "Inverno de 2011" records a time, a step: the rethinking or reinventing of my relationship with dance. 

Uma performance de Flávio Rodrigues Apoios: Festival da Fábrica/ IYME, Companhia Olga Roriz, CFContagiarte. Agradecimentos:Renata Portas, Cláudia Santos, Carla Valquaresma, Victor Hugo Pontes, Joclecio Azevedo.

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Video still©Rui Marques

©Rui Marques


"INVERNO" - Um filme de Flávio Rodrigues. Criado como objecto autónomo, mas em torno de "Inverno de 2011", a performance.
Para ver o vídeo clicar na seguinte fotografia still.